x

x

Vou por onde a arte me levar.

Minha foto

'' GOSTO DE DEGUSTAR O GOSTO COM SABOR DE VIDA; COSTURO A VIDA PELA VIDA E A VIDA ME COSTURA, COSTURO DE DENTRO PARA FORA PARA ME ENCONTRAR COM O VENTO.''  

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Minha apresentação de slides

Escravidão - parte 3, final




Uma escrava costureira, libertada em 1728, aceitou continuar servindo de graça a sua senhora.  E o mulato Isidoro Baptista teve a liberdade prometida para " uma hora antes da morte " de seu senhor.  Na década de 1880, sentindo o fim da escravidão, muitos senhores emitiram dezenas de alforrias de uma só vez, sob a condição de que os escravos trabalhassem mais sete anos.   Nas cidades, ficava difícil, mas possível, comprar a alforria.  Nas fazendas de café ou nos canaviais, contudo, era mais raro.  Os engenhos de açúcar impunham uma rotina brutal.  Durante a safra, eles funcionavam por até 20 horas por dia, com 80 a 100 pessoas na lida, a maioria homens africanos.  Entre plantar, limpar, colher e transportar, as funções eram distribuídas de modo que cada escravo cumprisse uma parte, mas só o engenho fizesse açúcar.  Isso mesmo, no Brasil Colônia já havia uma espécie de " fordismo " tropical.  Surgem cargos como mestre de açúcar e caldeireiro, que podiam ganhar recompensas e até salários.  Escravos mulatos ou nascidos no Brasil, conhecidos como crioulos, eram favorecidos na disputa desses postos, em relação aos africanos, vindos, principalmente, da Costa da Mina, noroeste do continente, e região de Angola.  " A mão de obra escrava foi a força motriz dos principais ciclos econômicos do país ", afirma Gustavo Acioli, doutor em História Econômica pela USP.   Em 1700, um negro adulto (de 14 a 45 anos) custava cerca de 100 mil réis.   Mas o valor variou conforme a demanda nos vários setores, em especial o açúcar, algodão e café.  Segundo afirma Stuart Schwartz, historiador da Universidade de Yale, no livro Escravos, Roceiros e Rebeldes ", o que os agricultores ofereciam como incentivos, para alcançar seus objetivos, podia ser interpretado pelos escravos como uma oportunidade que talvez lhes melhorasse a vida. "  Os escravos do açúcar tinham possibilidades mínimas de conquistar algum benefício, mas se agarravam a essas chances, submetidos à péssima condição que limitava sua expectativa de vida, no fim do século 18, a 23 anos, em média.   As punições incluíam o chicote, as máscaras de flandres, o tronco, entre outras, mas eram raras, porque afetavam o rendimento do escravo e, de quebra, o do engenho.  A situação dos escravos não era a mesma em todo o país.   No século 18, os homens trazidos para procurar fortunas de ouro e diamantes no leito dos rios de Minas Gerais levavam uma vida bem diferente daquela dos engenhos de cana.  Uma mina empregava no máximo 30 escravos.  Curvado, com os pés na água, o negro procurava as sonhadas pedras por horas a fio, parando somente para comer e fumar.  Mas, se vivia mais isolado, o mineiro tinha mais mobilidade.  " A mineração, mais que outros setores econômicos, propiciou aos escravos maior acesso à alforria e alguma mobilidade social graças à possibilidade de reunir um pecúlio ", escrevem os autores de Trabalho Compulsório e Trabalho Livre na História do Brasil.  Uma única pepita podia comprar a liberdade.   Isso estimulou outra característica peculiar da escravidão brasileira - a existência dos senhores negros, libertos que conseguiam acumular patrimônio e ter seus próprios escravos.  Embora fosse a minoria da minoria (no Rio ou em Salvador, as alforrias não passavam de 2% da população), isso acontecia, especialmente nos centros urbanos e nas minas.  Em 1888, o Brasil se tornou o último país do Ocidente a abolir a escravidão.  E os ex-escravos tiveram de se virar para serem absorvidos pela sociedade e sobreviverem.  Dependendo da área em que atuavam - nas minas, na lavoura, nos ofícios urbanos - foram integrados de forma diferente ao mercado.  Alguns trabalhadores da cidade tiveram a grande vantagem de dominar um ofício e, em alguns casos, contar com uma clientela.  No campo ou na capital, surgiram os contratos que repetiam o clientelismo, o compadrio, quando não a própria violência física.  " O caso exemplar é das escravas domésticas, que mantiveram suas relações com as patroas ", afirma a historiadora Ynaê Santos, pesquisadora da escravidão urbana.  Finalmente, muito dessa história se perdeu.  Então ministro da Fazenda, Rui Barbosa mandou queimar, em 14 de dezembro de 1890, os registros de posse e movimentação patrimonial envolvendo todos os escravos, o que foi feito ao longo de sua gestão e de seu sucessor.  A razão alegada para o gesto teria sido apagar " a mancha " da escravidão do passado nacional.   Mas especialistas afirmam que Rui Barbosa quis, com a medida, inviabilizar o cálculo de eventuais indenizações que vinham sendo pleiteadas pelos antigos proprietários de escravos.  Apenas 11 dias depois da Abolição, um projeto de lei foi encaminhado à Câmara, propondo ressarcir senhores dos prejuízos gerados com a medida.   Mas, mesmo sem os papéis, a escravidão deixou marcas duradouras e traços para sempre visíveis na História do país.  Saiba mais na Revista Aventuras na História - para viajar no tempo e www.educarparacrescer.com.br

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Escravidão - parte 2



Esse povo marcado ia tocando a vida em frente e se misturando à cultura brasileira.  " A alforria e a miscigenação geraram uma população mestiça livre que gradualmente se tornou, já na época colonial, quase tão numerosa quanto a escrava, tendo limitações, entretanto, no exercício do sacerdócio, na tropa de primeira linha ou no preenchimento de cargos públicos ", escrevem os pesquisadores Ida Lewkowicz, Horácio Gutiérrez e Manolo Florentino no livro Trabalho Compulsório e Trabalho Livre na História do Brasil.  Segundo eles, em 1872 pardos e mulatos livres já eram maioria, ou 42% da população: 4,2 milhões, em comparação a 1,5 milhão de escravos.  Ou seja, os negros estavam em vastas áreas rurais e ocupavam as ruas das principais cidades da colônia.  No cenário posterior à Abolição, surgiram tentativas de estabelecer novas relações de trabalho para esse grande contingente.  " O fim da escravidão era uma possibilidade de recomeço ", escreveu  Ubiratan Castro de Araújo.  Ele cita o caso raro do advogado Leovigildo Filgueiras, que chegou a criar uma entidade para intermediar contratos entre ex-escravos e novos patrões, a Sociedade Treze de Maio.  Mas em vão: " Nem mesmo essa tentativa de precoce terciarização (criação de um setor terciário, de serviços) funcionou.  Continuaram os favores, as obrigações e as clientelas. "  Outra experiência foi a Guarda Negra - segundo o historiador, um movimento político de apoio à princesa Isabel e ao Terceiro Reinado, que pretendia arregimentar simpatia popular e abrir frentes de trabalho onde antes só havia brancos.   " Assistimos então pelos jornais baianos ao debate entre negros da Guarda e negros republicanos, que identificavam a monarquia com a escravidão.  Uma vez vitoriosa a República em 1889, a Guarda Negra foi suprimida e os seus líderes mais ativos banidos para a Amazônia, como foi o caso do baiano Manuel Benício dos Santos, conhecido como Macaco Beleza."  A sociedade branca não queria perder seus privilégios.  E tratou de reforçar todos os comportamentos que distanciassem  os negros na hierarquia social e na divisão do trabalho.  Salvador, a terceira cidade com o maior número de negros no Brasil no século 19 (a primeira era o Rio), exemplificou a recusa: " Após 1888, a sociedade baiana tornar-se um corpo assentado, fechado.  Suas camadas superiores assumem uma consciência, aguda como nunca antes, de tudo do que pode separar o homem branco do preto ou do mestiço.  A cor da pele, antes 'esquecida', tornar-se, entre ricos e pobres, uma fronteira nítida.  O branco da terra que não teve sucesso  econômico passa a ser um negro.  Nas relações humanas fortalecem-se todas as regras da humildade, da obediência e da fidelidade dos séculos de escravidão ", afirma Kátia Mattoso.  No caso dos negros dispensados em Itaparica, por exemplo, a pesquisadora diz que " muitos atravessam a baía, refugiam-se na grande cidade, acrescentam-se a uma população marginal que tem todas as dificuldades do mundo para arranjar trabalho. "   O Brasil foi o país de maior e mais longa escravidão urbana.  Nas cidades, o escravo tinha mais independência do que no campo.  " Ele circulava nas ruas, estabelecia vínculos com homens livres humildes ", escreveu Kátia.  Havia mais chances de encontrar membros da mesma etnia, em festas e confrarias religiosas realizadas em praça pública, e a presença do senhor era menos opressiva.  Os escravos, mestiços, forros, libertos, circulavam fornecendo serviços, e podiam ser alugados.  Os acordos com os senhores também eram flexíveis: havia escravos que recebiam somente comida e roupa, outros, " escravos de ganho ", repassavam ao senhor uma porcentagem dos pagamentos feitos pelos seus clientes.  Eles vendiam doces, refrescos, frutas, aves e ovos, roupas, chaleiras, velas, estatuetas de santos, poções de amor.  Ou atuavam nos demais ofícios, como barbeiros, ferreiros, quitandeiros, parteiras, doceiras, mascates, lixeiros, carregadores.  Transportavam tudo nos ombros e nos braços, até pessoas - brancos brasileiros e estrangeiros acomodados em cadeirinhas almofadadas.  O dinheiro acumulado na prestação desses serviços podia um dia comprar a carta de alforria.  Sabendo disso, os senhores renovavam as exigências na negociação.  

Escravidão - Parte 1


Povo marcado - Os anos seguintes à Lei Áurea não foram nada fáceis para os ex-escravos.  Libertos, sem rumo e sem teto, os negros espalhados pelas cidades e fazendas brasileiras não receberam um tostão pelos 350 anos de trabalho forçado. Por Felipe van Deursen -    Vestida em rendas valencianas e sedas peroladas, a princesa regente procurava passagem no meio da multidão de 10 mil pessoas, na tentativa de chegar ao balcão do Paço, no Rio de Janeiro.   Sob uma chuva de flores atiradas por senhoras, conseguiu subir à sacada.  Eram 15 para as 3 da tarde quando entrou na sala do trono e assinou a Lei 3 353 com uma pena de ouro.   Do lado de fora, ao saber que a princesa Isabel havia sancionado a Lei áurea e posto fim à escravidão, o povo explodiu em gritos, vivas, salves.  Festa parecida com a que a ilha de Itaparica , na Bahia: por três dias e três noites, tambores e batuques ecoaram pelas copas das mangueiras.   Mas os relatos de uma velha escrava da ilha contam que, acabada a comemoração, o senhor do engenho reuniu todos os escravos e os mandou embora, um a um.  Os negros partiram dali sem terra, sem comida, sem dinheiro, sem sapatos, vestidos em roupas velhas de algodão grosso.  Naquela dispersão miserável começa a liberdade.  De acordo com os termos da Abolição ( de 13 de maio de 1888), a lei oficializou o princípio  jurídico da igualdade.  " Muitos foram os que saíram dos engenhos e fazendas para buscarem a liberdade na pesca e na mariscagem, outros para seguirem Antônio Conselheiro.   Houve os que se embrenharem nas matas para constituírem os novos quilombos.  Para todos esses rurais, o preço da liberdade era miséria.  Para a grande maioria, no entanto, a impossibilidade de acesso à terra tolhia os sonhos de liberdade ", escreveu o historiador Ubiratan Castro de Araújo, no artigo " Reparação Moral, Responsabilidade Pública e Direito à Igualdade do Cidadão Negro no Brasil ".   O regime escravocrata já estava enfraquecido desde o início do século 19, e a lei significou, na prática, o fim do sistema mercantil que vigorou no país desde a chegada do primeiro navio negreiro, em 1531.  Dos cerca de 10 milhões de negros capturados em diversas regiões da África para serem vendidos como escravos destinados às Américas, aproximadamente 4 milhões desembarcaram na costa brasileira.  Nagôs, jejes, angolas e benguelas foram algumas das principais etnias obrigadas a viver por aqui.   Representam muito do que somos hoje: uma nação que conviveu com três séculos e meio de escravidão e apenas 121 anos de trabalho livre.   A escravidão não é invenção dos portugueses e já existia na África.   Mas o tráfico mercantil, liderado por Portugal e depois pelo Brasil, espalhou a prática em escala sem precedentes no oceano Atlântico.  " Perversidade intrínseca: escravos eram adquiridos pelos traficantes em troca de mercadorias produzidas pela força de trabalho escrava ", escreveu o historiador Jaime Pinsky em A Escravidão no Brasil.  Eram embarcados entre 200 e 600 negros na África, a cada viagem.   Vinham amarrados por correntes e separados por sexo.   Sofriam, além do desconforto físico, falta de água e doenças.   No século 19, dos que vinham de Angola, 10% morriam na travessia, que demorava de 35 a 50 dias.   Assim que chegavam ao Brasil, eles eram postos em quarentena , a fim de evitar mais perdas por doenças.  E, para causarem boa impressão, submetidos à engorda e besuntados em óleo de palma, que escondia feridas e dava vigor à pele.  Faziam exercícios para combater a atrofia muscular e a artrose.  Depois, seguiam para os mercados de negros da cidade, como o Valongo, na Gamboa, região central de Rio de Janeiro.   De cabelos raspados, velhos, jovens, mulheres e crianças eram avaliados pela clientela, que apalpava dentes, membros e troncos.   Um viajante alemão, em viagem à Bahia no século 19, descreveu: "Assim, pelados, sentados, curiosos, os transeuntes, pouco se diferenciavam, aparentemente , dos macacos."   A existência do mercado chegou a se tornar problema de saúde pública, porque os mercadores atiravam cadáveres de africanos em um terreno próximo.  Um Juiz do distrito, em 1815, ordenou aterrar a área e proibiu a prática: " Mande notificar a todos os negociantes que recolherem pretos no Valongo para que nunca mais se atrevam a lançar para ali cadáveres. "   Hoje, resta quase nada desses mercados.  " A urbanização, apoiada pela consciência culposa, destruiu esses vestígios ", afirma a historiadora Katia de Queirós Mattoso no livro Ser Escravo no Brasil.  O mesmo ofício que proibiu covas rasas no pântano do Valongo impôs, como penalidade, multa de 30 mil réis aos armazéns responsáveis, identificados pelas marcas feitas a ferro quente na pele dos escravos.  Segundo documentos do Arquivo Nacional, os negros ganhavam, ainda na África, as iniciais do traficante ; e, ao chegarem aqui, as letras de seus proprietários.   A cada vez que fossem vendidos, seriam novamente marcados.  Dom Manuel, rei de Portugal, foi um dos primeiros a adotar essa prática dolorosa, no início do século 16, com os escravos da coroa.   Também era comum gravar uma cruz no peito dos que eram batizados.  E, em 1741, o governador da capitania do Rio, Gomes Freire de Andrade, determinou que os negros fugitivos, uma vez pegos, fossem marcados com um F e obrigados a usar um cordão de estacas.   De modo que, se escapassem uma segunda vez, teriam como castigo adicional uma orelha cortada.  As marcas e mutilações só seriam extintas como Código Criminal do Império, em 1842.

Arte erótica de Jana Brike




Jana Brike nasceu em 1980, Letônia no norte da Europa, sonhadora e muito solitária.  Gênero: realismo russo, se inspirou nos mestres da animação soviética, imagens dos cartões postais religiosos.  Em 1995, começou a experimentar seu próprio caminho, criando imagens assombrosos, mundo de sonhos, descrevendo a poesia com simbolismo de magia do cotidiano irreal e bizarro em que Jana vivia ou até em que  nós mesmos vivemos né.   As obras de Jana Brike são básicas, chegam a ser minimalistas.   Eu particularmente não acho que a arte tem que ser só bela, há muitas funcionalidades na arte, de infinitas expressões, seja 'belo' ou 'feio', a arte pode nos deslocar para lugares que muitas vezes nem sempre são agradáveis, pode nos chocar, ou tirar o fôlego e mesmo que não gosta tem que respeitar.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Parte 3 - Aleijadinho, o profeta da alma brasileira.final



Na imagem que fica acima da porta principal, entre as duas torres da capela, Aleijadinho gravou um alto-relevo que representa São Francisco de Assis, ajoelhado, tendo a visão de Monte Alverne.   O episódio ocorreu em 1224, na Toscana, Itália.   Durante uma estadia no eremitério de Monte Alverne, Francisco de Assis vê um anjo de seis asas que paira acima dele pregado numa cruz.   Duas asas elevam-se  sobre a cabeça do anjo, simbolizando intenção pura e ação correta.  Duas outras asas servem para voar, e mais duas cobrem seu corpo.  Diante dessa visão, Francisco de Assis é tomado de alegria e tristeza ao mesmo tempo.   Ao erguer-se dali, o pobre santo sente no corpo as marcas dos quatro pregos da cruz.   São as chagas do Cristo e o anúncio da Paixão de Francisco, que concluiria com sua morte dois anos depois.   Será possível que Aleijadinho, cujo corpo no final da sua participação nessa obra já começava a se despedaçar, tivesse um sentimento de identidade ou de antecipação em relação aos sofrimentos de São Francisco (pergunta).  Parece possível.  A visão de Monte Alverne é seguramente uma das obras mais importantes de Aleijadinho.   Também é certo que o sofrimento pessoal e as obras artísticas desse brasileiro têm um grande significado místico.  Um aspecto dominante da obra de Aleijadinho e sua equipe  está nas esculturas de 12 profetas, construídas em pedra-sabão em 1800 e 1805, no pátio frontal da Igreja de Bom Jesus de Congonhas do Campo.  São quatro profetas maiores - Isaías, Jeremias, Ezequiel e Daniel - e oito profetas menores.   Todos eles anunciam a vitória da fraternidade universal proposta pela tradição cristã.   Aleijadinho não fez fortuna.  Esse profeta da alma brasileira era descuidado na administração do dinheiro e foi roubado muitas vezes.   Além disso, dividia seus ganhos pela metade com o escravo Maurício e dava muita esmola aos pobres.   No fim da vida libertou seus escravos.   Em 1812, o artista ficou quase totalmente cego.   Então foi viver na casa da sua nora Joana Francisca, que cuidou dele com devoção.  O final chegou aos 76 anos de idade, dia 18 de novembro de 1814.   Notas: Veja Ideias Filosóficas no Barroco Mineiro, Joel Neves, Ed. Itatiaia, BH, 1986, p. 31.   Romanceiro do Aleijadinho, Stella Leonardos, Ed. Itatiaia, BH, 1984.   Aleijadinho de Vila Rica, Waldemar de Almeida Barbosa, Ed. Itatiaia, BH, 1984, 95 pp. em tamanho ofício, pp. 32 e 33.    São Francisco de Assis, Escritos e Biografias, Ed. Vozes, RJ, 1991, ver p. 246.   Sobre as asas ligadas à cabeça, ver p. 263.    Durante o ciclo do ouro, Minas Gerais tornou-se um foco de sentimento de brasilidade.   Várias décadas antes do grito do Ipiranga, a independência do nosso país foi proclamada no plano abstrato do ideais.  Em Ouro Preto veio à luz o sonho ainda hoje incompleto de que o Brasil seja plenamente independente, próspero e guiado por um sentimento de justiça para com todos.  No século 18 não havia separação entre arte, indústria e artesanato.  O conceito de beleza estava ligado ao que é útil e funcional no cotidiano, e quase todo artista era, ao mesmo tempo, um artesão  e um operário.   No plano político, é verdade que o barroco europeu foi absolutista.   Em uma arte centralizadora, que fortalecia o poder dos papas e das monarquias e negava a influência  do Renascimento.  Mas  na colônia brasileira a realidade foi diferente.  O barroco das Minas Gerais tem um sabor criativo, renovador, inquietante - quase revolucionário  por seu compromisso com a terra dos brasileiros.

Parte 2 - Aleijadinho, o profeta da alma brasileira.



Um dia, Antônio Francisco começou a perder os dedos dos pés.   Depois de algum tempo, só podia andar de joelhos.  Os dedos das mãos atrofiavam-se e curvavam-se, em alguns casos caíam.   Restavam os polegares e os índices.   Conta-se que a angústia e o desespero do artista fizeram com que ele próprio cortasse pedaços de suas mãos, usando para isso o formão com que trabalhava.  Há diferentes teorias sobre a natureza da sua doença.   Seria a zamparina, que causava deformidades e paralisia (pergunta).  Ou era uma doença semelhante ao escorbuto (pergunta).   Seria uma consequência de excessos amorosos, como asseguravam as comadres (pergunta).  Com o agravamento da doença, as pálpebras dos olhos inflamaram-se e sua parte inferior ficava visível.   O biógrafo Rodrigo Bretas conta que Aleijadinho perdeu quase todos os dentes.   A boca entortou-se do modo como ocorre às vezes com os deficientes mentais.   O queixo e o lábio inferiores ficaram caídos.   O olhar do artista adquiriu uma expressão de ferocidade, que chegava a assustar quem o encarasse subitamente.   Essa circunstância  e a boca torta davam-lhe um aspecto medonho.   A impressão causada por sua fisionomia tornava Antônio Francisco agressivo com as pessoas.   Com os sentimentos feridos, ele ficava irritado até quando ouvia elogios: enxergava ironia oculta nas palavras amáveis de gente desconhecida.  Embora fosse alegre e bem humorado entre os amigos, ele não tolerava a curiosidade do povo.  Para evitar o constrangimento, trabalhava oculto.  Mesmo que estivesse entre as quatro paredes de uma igreja, isolava-se do resto do salão por meio de lonas.   Conta-se que certa vez um general - provavelmente Luís da Cunha Menezes decidiu observar de perto enquanto ele trabalhava em pedra.   Aleijadinho não pôde afastar diretamente o visitante ilustre, mas fez cair tantas lascas de granito sobre o general que teve de se retirar.   Os trabalhos eram feitos em equipe; Aleijadinho possuía um escravo africano chamado Maurício, que operava como entalhador e lhe era absolutamente leal.   Além dele, dois outros escravos: Agostinho, também entalhador, e Januário, que guiava o burro em que o artista se deslocava pela cidade.   Para não ser visto pelas pessoas, Aleijadinho ia de madrugada  para o trabalho e dali só saía à noite.   A medida que o sofrimento o forçava a amadurecer, o artista se elevava até uma percepção superior das coisas.   Sua vida pessoal era uma crucificação.   A ressurreição ocorria no mundo da arte.   Entre os trabalhos famosos de Aleijadinho estão sua atuação na Igreja  de Nossa Senhora do Carmo (Ouro Preto), na Igreja de Nossa Senhora do Carmo (Sabará) e na Igreja de São Francisco de Assis (Ouro Preto).  A capela de São Francisco é considerada a melhor expressão da fase final do barroco mineiro.   Nela, Aleijadinho foi também arquiteto e dirigiu a parte principal da obra, entre 1772 e 1779.  Depois dessa data, outro mestre notável, Manuel da Costa Ataíde, fez grande parte das pinturas do interior.

Parte 1 - Aleijadinho, o profeta da alma brasileira - Por Carlos Cardoso Aveline.



A presença sutil de Aleijadinho, 190 anos depois de sua morte, ainda é perceptível em Ouro Preto.  As velhas casas, ruas e morros desse município que é patrimônio da humanidade, preservam a atmosfera do século 18 e são um poderoso centro de amor pelas coisas do Brasil.     Sob a aparência simples de belos objetos de arte, as obras do artista barroco Aleijadinho desafiam o tempo como lições de vida e expressões de sabedoria.   A vasta herança deixada por Antônio Francisco Lisboa tem muito a ensinar no século 21 porque é multidimensional.   Seu legado não está apenas nas igrejas e santuários de Minas, mas inclui também a tradição oral e os documentos históricos.   Pode ser entendido de diferentes formas, e ganha novos significados à medida  que o tempo passa e uma geração sucede à outra.  .   Escultor e arquiteto do século das luzes, Aleijadinho viveu o conflito entre o sagrado e o profano.   Ele combinou esforço e inspiração, talento e tenacidade, imaginação e teimosia - e desse modo conseguiu ser maior que seu sofrimento pessoal.  Para um artista, como para um místico, o infinito está dentro do que é finito.   A missão da arte é revelar a presença do eterno nas coisas passageiras.  Ela quer fazer com que o espírito floresça no corpo, ou que a luz surja no mundo, e Aleijadinho viveu intensamente esse combate.  Assim, ajudou a formar a essência do que há de melhor na alma brasileira.   É verdade que vários dados da sua vida são imprecisos e sua biografia está envolta em lendas.   Mas há algumas informações seguras.   Antônio Francisco foi filho natural de Manuel Francisco Lisboa, mestre carpinteiro bem conhecido em Vila Rica do Ouro Preto.   É quase certo que ele nasceu em 1738, embora seu principal biógrafo dê uma data errada para o nascimento: 1730.  Tampouco há um retrato confiável de Aleijadinho.   Por sua origem humilde, aquele genial artista mulato não podia ser membro da elite e não merecia ser retratado.   Além disso, sua fisionomia deformada era motivo suficiente para que ele próprio evitasse retratos.  O biógrafo Rodrigo Bretas conta que ele aprendeu desenho, arquitetura e escultura nas escolas práticas do seu pai e do desenhista João Gomes Batista.   Com cerca de 40 anos, Antônio teve um filho a quem deu o nome de Manuel Francisco Lisboa, em homenagem a seu pai.   Sabe-se que até essa época o artista tinha uma vida cômoda e boa saúde.   Gostava de bailes, danças e comida farta.  Mas Antônio Francisco vivia uma encruzilhada:  como optar entre a beleza sagrada e a beleza mundana...As ilusões ficam mais forte quando erguemos o olhar para o mundo divino.  O dilema de Antônio, inicialmente agradável, foi descrito no Romanceiro do Aleijadinho.   Os tempos fáceis terminaram em 1777, quando o carma trouxe as moléstias físicas.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Clarice Lispector


...E na minha noite sinto o mal que me domina.  O que se chama de bela paisagem não me causa senão cansaço.  Gosto é das paisagens de terra esturricada e seca, com árvores contorcidas e montanhas feitas de rocha e com uma luz alvar e suspensa.  Ali, sim, é que a beleza recôndita  está.   Sei que também não gostas de arte.   Nasci dura, heroica, solitária e em pé.  E encontrei meu contraponto na paisagem sem pitoresco e sem beleza.  A feiura é o meu estandarte de guerra.  Eu amo o feio com um amor de igual para igual.  E desafio a morte.  Eu _ eu sou a minha própria morte.  E ninguém vai mais longe.  O que há de bárbaro em mim procura o bárbaro cruel fora de mim.  Vejo em claros e escuros os rostos das pessoas que vacilam às chamas da fogueira.   Sou uma árvore que arde com duro prazer.  Minha noite vasta passa-se no primário de uma latência.  A mão pousa na terra e escuta quente um coração a pulsar.   Vejo a grande lesma branca com seios de mulher: é ente humano (pergunta).  Queimo-a em fogueira inquisitorial.  Tenho o misticismo das trevas de um passado remoto.  E saio dessas torturas de vítima com a marca indescritível que simboliza a vida.  Cercam-me criaturas elementares, anões, gnomos, duendes e gênios.   Sacrifico animais para colher-lhes o sangue de que preciso para minhas cerimônias de sortilégio.  Na minha sanha faço a oferenda da alma no seu próprio negrume.  A missa me apavora - a mim que a executo.  E a turva mente domina a matéria.  A fera arreganha os dentes e galopam no longe do ar os cavalos dos carros alegóricos.  Na minha noite idolatro o sentido secreto do mundo.  Boca e língua.  E um cavalo solto de uma força livre.  Guardo-lhe o casco em amoroso fetichismo.  Na minha funda noite uma doçura me possui: a conivência com o mundo.  Eu amo a minha cruz, a que doloridamente carrego.  É o mínimo que posso fazer de minha vida: aceitar comiseravelmente o sacrifício da noite.  O estranho me toma: então abro o negro guarda-chuva e alvoroço-me numa festa de baile onde brilham estrelas.   O nervo raivoso dentro de mim e que me contorce.  Até que a noite alta vem me encontrar exangue.   Noite alta é grande e me come.   A ventania me chama.   Sigo-a e me estraçalho.  Se eu não entrar no jogo que se desdobra em vida perderei a própria vida num suicídio da minha espécie.   Protejo com o fogo meu jogo de vida.  Quando a existência de mim e do mundo ficam insustentáveis pela razão - então me solto e sigo uma verdade latente.  Será que eu reconheceria a verdade se esta se comprovasse (pergunta).   Estou me fazendo.  Eu me faço até chegar ao caroço.  ...

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Arte erótica: A arte erótica, vintage e satânica do século 19.





Esse diabo tem nais a ver com a imagem mitológica grega do sátiro exalando uma exuberância lasciva.   " Felizmente, o erotismo infernal da " diabruras " ainda está vivo, graças a indivíduos como Robert Stewart. "

Parte 4 - Gestapo e Adolf Hitler -.final



Organograma do terror: como funcionava a política secreta.  RSHA __ Em  1939, é criado o Escritório Central de Segurança do Reich, que unifica a burocracia policial nazista.  Ele se dividia em sete escritórios, entre eles o Serviço de Segurança (SD), o Ausland SD, sua réplica com espiões no exterior e a Polícia Criminal (Kripo).  A Gestapo era o escritório 4, com seis departamentos.  Em 1944, a polícia secreta tinha 32 mil integrantes.  O comando da RSHA se confundia com o da SS.  Era comum que a Gestapo colaborasse e ao mesmo tempo competisse com as demais polícias.   Mãos de Ferro: Comandantes dos departamentos.  Eram jovens de classe média, com alta formação acadêmica (em sua maioria advogados), convertidos ao nacional-socialismo após a ascensão de Hitler, em 1933.  Oficiais: Remanescentes das polícias do império, alguns eram ex-membros da SA.   Chefes dos serviços judeus: Veteranos na polícia selecionados entre os capazes de despertar confiança nas vítimas.  Colaboradores: Eram classificados pela burocracia interna como Pessoas G (eventuais e voluntários, a maioria) e Pessoas V (permanentes e pagos).   Junto com a Polícia Criminal (Kripo), a Gestapo formava a Sipo (Sicherheitspolizei), ou a Polícia de Segurança.  Foram elas que fizeram a maior parte do trabalho sujo contra os judeus.   Motivos Banais: Cidadãos comuns foram essenciais como colaboradores da Gestapo; motivo: disputa de vizinhos, discussão de ex-amantes, convicção política, motivos econômicos, outros motivos e desconhecido.   Heinrich Muller: iniciou-se a carreira policial combatendo comunistas em Munique.  Em 1939, tornou-se chefe da Gestapo. Respondia a Heydrich, e este a Himmier.  Desapareceu em 1945.  Heinrich Himmler: só era menos poderoso que Hitler.  Comandava a SS e todas as polícias.  Idealizou o Holocausto, traiu Fuhrer, foi preso e suicidou-se em 1945.  Hermann Goring: criador da Gestapo, liderou a Luftwaffe, entre os altos cargos que ocupou no Reich.  Condenado à morte em Nuremberg, suicidou-se antes com veneno, em 1946.    Figurões: Esses sujeitos  foram decisivos para os rumos da Gestapo, Muller foi promovido quando Reinhard Heydrich assumiu a RSHA.  Himmler, racista convicto, planejou a Solução Final com Heydrich.  Goring inaugurou a escalada de terror como o "pai" da polícia secreta.  Métodos de Tortura e Execução: sobreviventes relataram que os agentes queimavam, afogavam e davam choque nas vítimas interrogadas.   Também as mantinham em água gelada durante horas, entre outras formas de suplício.  Grupos especiais da Gestapo integraram esquadrões da morte que atuavam nos países ocupados durante a guerra.  Judeus e outros adversários do regime eram enviados aos campos de concentração e extermínio da SS, equipados com câmaras de gás e fornos crematórios.  

Parte 3 - Gestapo e Adolf Hitler.



" Já  não para dizer que a Gestapo estava em toda parte e o poder do estado era total.   Também não dá para dividir  os alemães em dois polos opostos: o dos seguidores cegos de Hitler e o das vítimas ou combatentes da resistência. ", diz Johnson, relativizando a gigantesca dimensão atribuída à instituição por pesquisadores no pós-guerra.   Em Krefeld, por exemplo, com 170 mil habitantes, a polícia secreta tinha apenas 13 oficiais (um para cada 13 mil habitantes).  No total, a Gestapo contava com 32 mil integrantes em 1944.   Para ter uma ideia, as SA tinham 2,9 milhões, dez anos antes.  Com a equipe restrita, como a instituição conseguiu criar nas pessoas a percepção de que eram vigiadas o tempo todo (pergunta).   Eis a colaboração do " alemão comum ".   Qualquer um era tomado de pânico só de receber a carta timbrada convocando para " responder perguntas ".  Mas o ponto é: sem a ajuda dos vizinhos e companhia, a Gestapo não teria a mesma eficiência.   Entre 1933 e 1939, 41% dos processos contra judeus em Krefeld foram iniciados por denúncias de civis.  Em outras cidades, não foi diferente.  Alguns fofoqueiros chegaram a integrar uma " rede de espionagem " da instituição.   Ninguém sabe ao certo seu tamanho.   Em Nuremberg (2,7 milhões de habitantes, em 1941), havia 80 informantes para os 150 funcionários.   Vários colaboradores eram antissemitas, e outros, indiferentes - mas, em geral, receptivos à propaganda nazista.   E disposto a dedurar pelo bem do país ou resolver desavenças pessoais, até rixas com ex-amante.   Uma cliente insatisfeita, da cidade de Mitelberg, denunciou Ludwig Hell por vender aguardente a uma judia em seu armazém, em novembro de 1941.  Depois de passar pela loja de manhã, Helen Pfaff voltou à tarde para comprar uma cola extra de " produtos escassos ", Hell recusou-se a atendê-la, mas serviu, sem cerimônia, a freguesa seguinte, uma judia.   Pfaff reclamou à Gestapo.   O comerciante teve de jurar que nunca mais faria algo parecido e permaneceu sob vigilância.   Já o doutor Kneisel declarou que se sentia obrigado a denunciar Ilse Sonja Totzke por seu " dever como oficial da reserva ".   " Á medida que o regime se tornava mais totalitário, sobretudo durante a guerra, aí sim a Gestapo infundiu muito medo e adquiriu cada vez mais poderes para apertar os mecanismos de controle.   Dessa forma, o que era permissível em 1935 terminava com prisão ou morte em 1943, afirma o historiador Andrés Reggiani, da Universidade Torcuato Di Tella.   " Não esperamos ser amados por muitos ", dizia Himmler.   Bastava o conformismo dos cidadãos.  " O que o regime precisava era estabelecer a linha oficial, obter a cooperação e atuar sem descanso com base na informação recebida ", afirma Gellately.   Foi o que a Gestapo fez, sem que quase ninguém na Alemanha reclamasse da matança de 6 milhões de judeus, além de gays, ciganos e outras minorias.  Em 1946, o Tribunal de Nuremberg julgou os 22 criminosos de guerra mais importantes da Alemanha.   Doze foram condenados à morte.   A Gestapo foi definida como uma organização criminosa e a corte resolveu que os responsáveis pagariam por seus crimes.   Mas vários manda-chuvas menos conhecidos, como Richard Schulenburg, puderam reorganizar sua vida normalmente.   Aos 68 anos, o ex-chefe de assuntos judaicos em Krefeld pleiteou uma pensão do Estado.  Submeteu-se a um processo de " desnazificação ", em que teve de convencer um comitê da cidade sobre seu passado  impoluto.   Juntou referências de moradores e jurou ter cometido delito: " Eu tratava com humanismo todas as pessoas ".   Não conseguiu a pensão, mas seu advogado apelou, justificando que ele fora obrigado a integrar a Gestapo.  Deu certo: recebeu pensão até morrer, aos 82 anos, Karl Loffer, da polícia secreta de Colônia, também se reabilitou com cartas de apoio de líderes das Igrejas católica e protestante.  Diretor-geral do departamento dedicado aos judeus.  Adolf Eichmann fugiu para a Argentina, mas foi capturado por israelenses em 1960 e condenado à morte.  Diversos companheiros dele, contudo, continuaram gozando a boa vida na América do Sul - sabe-se lá onde mais.    Saiba mais: Livros: Gestapo and German Society, Robert Gellately, Oxford University Press, Oxford, 1990.   O papel de alemães comuns como força da polícia.  Sem edição no país.  E será lançado em breve, Apoiando Hitler.   Nazi Terror, Eric A. Johnson, Perseus Books, 2002.  Rica em arquivos da Gestapo, oferece uma análise dos motivos que levaram civis a cooperar na caça aos judeus.  História da Gestapo, Jacques Delarue, Record, 1962.  O autor participou da resistência francesa e acompanhou alguns processos contra os nazistas.  

Parte 2 - Gestapo e Adolf Hitler.



Chefões da Gestapo e da cúpula nazista dominaram a Interpol.   A Organização Internacional de Polícia Criminal , a Interpol, foi criada na Áustria, em 1923, para promover a cooperação entre as polícias do mundo.  Para a Gestapo, o intercâmbio significava uma bela chance de aprimorar as técnicas de investigação.   Não foi à toa que vários nazistas fizeram carreira na organização.   Um deles foi o general da SS Kurt Daluege, eleito vice-presidente da Interpol em 1937.  Reinhard Heydrich, um dos primeiros líderes da Gestapo, chefe da RSHA (que englobava as polícias do Reich, inclusive a secreta ) e arquiteto do Holocausto, ocupou a presidência da organização entre 1940  e 1942.  " Sob a nova liderança alemã, a Interpol vai ser o centro da polícia criminal ", anunciou ele à época.   A sede nacional da Interpol ficava numa mansão em Wannsee, subúrbio de Berlim.  Foi ali que a cúpula nazista realizou uma conferência, em 20 de janeiro de 1942, para planejar a chamada Solução Final contra os judeus.   Heydrich morreu meses depois, vítima de um atentado em Praga, mas o Reich não perdeu a liderança da organização por muito tempo.  Ernst Kaltenbrunner (sucessor de Heydrich na RSHA ) tornou-se presidente em 1943 - e continuou no cargo até o fim da Segunda Guerra.   Agentes monitoravam um dos mais luxuosos bordéis de Berlim.  Segredos de alcova também alimentaram a rede de informações do Reich.   Uma parceria entre Gestapo e o SD (o Serviço de Segurança do partido nazista ) transformou um badalado bordel de Berlim em centro de vigilância.   O Salão Kitty tinha escutas nos quartos e prostitutas treinadas para tirar confidências de clientes  como diplomatas do exterior e oficiais nazistas.   A ideia de Reinhard Heydrich era identificar possíveis traidores.   O bordel foi operado pelo SD entre 1940 e 1942 e inspirou o filme Salão Kitty (1976), de Tinto Brass.   Mulheres ambiciosas não só espionavam mas também tiravam vantagem de seu relacionamento  com os barões da Gestapo, como a atriz russa Mara Tchernycheff,    Protegida por Henri Chamberlain, chefe da polícia secreta na França ocupada, ela faturou alto contrabandeando bens de judeus deportados.   Ela é uma das " condessas da Gestapo ", citadas no livro homônimo de Cyril Eder, sem edição no Brasil.   Werner von Blomberg e Werner von Fritsch, em 1938, eles renunciaram aos mais altos cargos das Forças Armadas da Alemanha por causa de informações pessoais e boatos espalhados por agentes da Gestapo.   A mulher do primeiro posou para fotos pornográficas e o segundo foi acusado de ser homossexual.  A maioria desses agentes atuava atrás da escrivaninha, analisando denúncias.  Nas batidas em locais suspeitos, nas ruas, frequentemente andavam à paisana.   Mas, sob o comando de Himmler, que pretendia fundir toda a intricada estrutura policial alemã à SS, investigadores, espiões e detetives tornaram-se cada vez mais violentos.   Desde o início da Segunda Guerra, membros da Gestapo passaram a integrar, ao lado da tropa paramilitar, esquadrões da morte que seguiam o Exército nos países ocupados, eliminando quem bem quisessem - principalmente os judeus.   Himmler revelou-se um dos maiores carrascos da população judia ainda antes da guerra.   A perseguição começou com um boicote econômico às suas lojas, ordenado por Hitler, em 1933.   Dois anos depois, as Leis de Nuremberg cassaram a cidadania dos judeus e declararam ilegais os casamentos entre eles e pessoas de " sangue alemão ".   Qualquer contato passou a ser visto pelo regime como um crime em potencial.   E a polícia secreta mantinha-se atenta, para azar de Samuel Novak, entre tantos outros.   Em 1936, o judeu de 61 anos foi a um restaurante berlinense com a jovem ariana Augusta Hauser.   Um soldado avisou a Gestapo.   Interrogada, ela revelou que tinha um caso com o patrão havia dois anos.   Ambos foram presos e torturados.   Desesperado ao saber da confissão do amante, Novak enforcou-se na cela.   " A maioria dos alemães achou que as novas leis estabilizariam a situação do país ao relegar aos judeus uma esfera de segunda classe e que isso sanaria a violência das ruas.   Em geral, não pareciam se incomodar com a violência dos direitos  fundamentais ", diz o historiador Michael Burleigh no livro The Third Reich: A New History (O Terceiro Reich: Uma Nova História, inédito no Brasil).   " A oposição se limitava à burguesia liberal, alguns enclaves católicos e homens de negócios preocupados com as repercussões no exterior. "   A perseguição se intensificou para valer com a Noite dos Cristais, em 9 de novembro de 1938.   Uma onda de ira popular varreu a Alemanha em represália ao assassinato de um diplomata , em Paris, por um judeu polonês, revoltado com a perseguição a seu povo.  Os tumultos foram insuflados pelos escritórios locais da Gestapo.   Deixaram mais de 90 judeus mortos e centenas de feridos.   Cerca de 30 mil pessoas foram enviadas aos campos de concentração, administrados pela SS.   A partir daí, a polícia secreta só permitiu perseguições " metódicas e planejadas ", como dizia Goring.   Durante a guerra, o controle social foi radicalizado.   O regime de exceção podia considerar delito qualquer frase dita em público que pudesse ofender " a vontade do povo alemão ".  A Gestapo se tornara mais poderosa do que nunca.   Himmler conseguira unificar todas as forças policiais do país e submetê-las à SS com a criação do Escritório Central de Segurança do Reich (RSHA).   Em 1940, a polícia secreta foi liberada de cumprir o Decreto do Reichstag.   Ou seja, na prática, podia atuar como legislador, juiz, jurado e executor.   Assim, tornou-se a última instância responsável pelo destino dos judeus.  Comandante em Berlim, Reinhard Heydrich personificava o estereótipo dos oficiais da Gestapo: intrépido e impassível.   " Muitos também tinham uma personalidade insegura.  Heydrich vivia atormentado pela ideia de ter um antepassado judeu ", diz Eric A. Johnson em Nazi Terror.   Segundo ele, os chefes de assuntos judaicos eram selecionados entre os veteranos de aparência pouco ameaçadora - uma estratégia para fisgar suas vítimas.  " Além de refinar métodos tradicionais de tortura, terror e colaboração, a Gestapo agregou um ingrediente novo: ela operava juntamente com organizações extraterritoriais e internacionais, como a Ausland-SD (agência de inteligência no exterior com abrangência das Américas ao Japão), o corpo  diplomático alemão e departamentos policiais da Interpol, que ela ajudou a fundar, afirma o escritor Edwin Black, autor de Nazi Nexus.  

Parte 1 _ Gestapo e Adolf Hitler.


A Gestapo nasceu em 1933 para esmagar a oposição a Adolf Hitler e logo se transformou na peça central do terror nazista.  Com a ajuda de cidadãos comuns, a Gestapo vigiou, sequestrou, torturou e executou milhares de pessoas.   Fonte: Revista " Aventuras na História ", para viajar no tempo, por Eduardo Szklars   __ Em 1934, a estudante de música Ilse Sonja chamou a atenção dos moradores da pequena Wurtzburgo, na Alemanha.   Volta e meia, era vista conversando com judeus.   Graças a denúncias anônimas, em 1936, sua caixa de correio passou a ser vigiada pela Gestapo.   Três anos depois, o médico Ludwig Kneisel foi ao quartel-general da polícia secreta do regime nazista para delatar o " comportamento suspeito " da vizinha.   Em 1940, foi a vez da jovem Gertrude Weiss.   Ela informou aos agentes que a estudante nunca respondia à saudação " Heil Hitler! ".   Questionada no ano seguinte, Totzke confirmou que tinha amigas, mas não amigos judeus.   Corria o risco de ser acusada de ter relações sexuais com eles - um grave delito de " desonra racial ".   Em vários interrogatórios, a Gestapo advertiu que a mandaria a um campo de concentração se mantivesse as amizades.  Mas ela deu de ombros: declarou que não apoiava o antissemitismo do Reich.   Em 1943, sob a ameaça crescente, fugiu com a judia Ruth Basinsky para Estrasburgo (atual França), sua cidade natal.   As duas cruzaram a fronteira com a Suíça, mas foram detidas na aduana e entregues à Gestapo.   Totzke foi enviada ao campo de concentração de Ravensbruck - e nunca mais voltou.   A Gestapo identificava, prendia, confiscava os bens e mandava os judeus à morte.   Raros alemães desafiaram a Gestapo como ela.   Milhões, contudo, viveram no mesmo clima de pavor, em que todos eram denunciantes e potenciais denunciados.   Após a Segunda Guerra, a polícia secreta de Adolf Hitler tinha a fama de ser infalível e implacável, quase onisciente, até hoje; porém historiadores têm uma visão distinta.   Embora fosse a peça central do terror nazista e agisse praticamente acima da lei, a Gestapo não teria a mesma eficácia sem a colaboração de cidadãos comuns, como Kneisel e Weiss.   As fichas da estudante de música e outras vítimas também indicavam que a brutalidade não atingiu a todos por igual nem aconteceu do dia para a noite.   Ao menos no início do Terceiro Reich, muitos tiveram margem de manobra para lidar com as investidas do estado policial... até que já fosse tarde demais.   Quarta feira, 26 de abril de 1933.   Criada por um decreto do ministro do Interior da Prúcia, Hermann Goring, a Gestapo surgiu da necessidade de o regime nazista controlar (e eliminar) seus adversários políticos.   Vigiar o pensamento não era novidade no país.   Desde os tempos do Segundo Império (1871-1918), o chanceler Otto von Bismarck costumava recorrer as leis especiais para perseguir oponentes.   Após a derrota da Alemanha na Primeira Guerra, o império deu lugar à República de Weimar (1919-1933).  Mas a democracia manteve a velha estrutura policial, a cargo de cada estado, monitorando, inclusive, as atividades dos futuros donos do poder.   Os efeitos do conflito ainda se faziam sentir, e os nazistas aproveitaram a turbulência que tomou conta da nação para obter sucessivos triunfos nas urnas.  Assim, quando o presidente Paul von Hindenburg apontou Hitler como chanceler, em janeiro, a base da Gestapo já estava pronta.  Os nazistas só precisariam depurar os profissionais e aproveitar antigos métodos de inteligência, investigação e tortura para criar sua polícia secreta.   O incêndio do Reichstag (o parlamento), em 27 de fevereiro de 1933, foi decisivo nesse processo.   Pesquisadores ainda discutem se os nazistas atearam o fogo (é provável que sim) - mas é fato que usaram as chamas para culpar os adversários comunistas.  Pressionado por Hitler, Hindenburg assinou o Decreto do Reichstag, que facultou a polícia a espiar as comunicações privadas e manter suspeitos sob " detenção preventiva " sem acusação específica.  O Partido Nazista obteve 43,9% dos votos nas eleições parlamentares da semana seguinte e conseguiu aprovar a chamada Lei de Habilitação, que dava ao fubrer o direito de dispensar o aval do parlamento ou do presidente para governar.  Logo foram abolidas as liberdades de expressão, de imprensa e de associação.   Goring, que dirigia a força policial da Prússia desde fevereiro, já havia dispensado centenas de funcionários não alinhados como o ideário nazista.   Eles foram substituídos, em geral, por integrantes das tropas paramilitares do partido, as SA e SS.   O quartel general, em Berlim, em breve teria jurisdição sobre todo o país, absorvendo outros serviços de inteligência de cada estado, que também passaram por expurgos internos.   Em novembro, uma lei isentou a polícia secreta da jurisdição do Ministério do Interior e deu aos agentes uma liberdade de ação inédita.  " Cerca de 90% dos antigos agentes das polícias políticas permaneceram na Gestapo ", afirma o historiador Robert Gellately, autor de várias obras sobre o Reich.  Segundo ele, os veteranos acabaram atraídos por uma espécie de " tentação totalitária ": o poder gigantesco adquirido pela instituição para controlar seus alvos.   Suas demandas tinham prioridade sobre as de outras polícias.  " A Gestapo reunia os investigadores de elite, encarregados de fazer valer as leis e os decretos que o regime considerava mais importantes: aqueles sobre raça e oposição política. "   As primeiras vítimas foram os comunistas, social-democratas e demais adversários políticos.   Dias após o incêndio, os nazistas ergueram 30 campos de concentração para os " inimigos ".   Antes que o mês de abril terminasse, mais de 5 mil pessoas já estavam em detenção preventiva.   Em 25 de maio, a polícia da Baviera informou que o Partido Comunista e todos os seus afiliados " haviam deixado de existir ".   A Gestapo serviu também para vigiar e punir seus próprios pares.   Nomeado ministro da aviação, Goring se viu compelido, em 1934, a entregar o controle da força a Heinrich Himmler, líder da SS, então à frente das polícias de toda a Alemanha, exceto a prussiana.   Interessados em conter a influência  da SA (mais numerosa e dirigida por Ernst Rohm), os dois usaram a Gestapo e a SS para executar centenas de " camisas pardas" (os membros da SA) em 30 de junho daquele ano - a Noite das Facas Longas.   Rohm não sobreviveu ao dia seguinte.  Não era raro que as investigações da polícia secreta servissem como arma na disputa de poder dentro do regime.   Que o digam Werner von Blomberg e Werner von Fritsch.   Em 1938, eles renunciaram aos mais altos cargos.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Arthur Bispo do Rosário - Parte 12, final.

Textos críticos: " Muito já se escreveu sobre a 'produção artística' realizada no confinamento dos asilos e manicômios, ou a dos outsiders, marginais do circuíto das artes plásticas e do sistema da Cultura, sem, contudo, conferir-lhe um papel na História da Arte, porque esta produção desliza para outras significações.    O esforço tem sido no sentido de determinar-lhes uma categoria - art brut, arte incomum, singuliers de l'art - posto que revelam a criatividade em estado puro, sem nenhuma sistematização ou disciplina, (...).   Entretanto, o interesse na obra de Bispo reside no conjunto da produção com seu método de trabalho, que consiste em uma metáfora romântica sobre ser artista: ele, no interior de sua cela, desfiava seus uniformes de interno para obter fios azuis desbotados com os quais bordava sua cartografia, mumificava os objetos do seu cotidiano.   O artista desnuda-se, despoja-se para dar existência à obra, assinalando a transitoriedade do corpo em oposição à permanência do trabalho. "   Ivo Mesquita         " As assemblages reúnem objetos geralmente industrializados, produzidos em série, ligados ao consumo e à cultura de massa.   Em cada painel uma linha de objetos: canecas de alumínio, botões, garrafas de plástico com papel picado, ferragens, sabonetes, colheres, sapatos, botas de borracha, material elétrico e eletrônico, objetos rituais.   Às vezes os objetos localizados num mesmo suporte diferem entre si, mas as texturas e os materiais se assemelham.   Vistas em conjunto, essas acumulações fazem lembrar um bazar ou loja de ferragens.   São como mostruários e, não por acaso, Bispo denominava-as 'vitrines'. (...)   Reuniu também em suportes precários objetos de madeira nua, às vezes com rala mão de cal, que lembram as merzbilders de Schwitters.   Objetos isolados.   duchampianos, eu diria, de decifração ainda difícil, com forte carga simbólica, ou simples ente de encantadores, como estas pequenas caixas na qual papéis recortados e multicoloridos são como notas musicais. "   Frederico Morais             " A extrema originalidade que reveste a obra desses criadores é fruto de vários fatores: a quase ausência de formação acadêmica, a soltura em relação ao espírito do tempo, o afastamento do convívio social, etc.   Nessa solidão ontológica reside a certeza de Fernando Diniz quando transforma em arte velhos lençóis, ou a determinação de Bispo do Rosário ao reunir objetos banais na Colônia Juliano Moreira - um dos depósitos terminais de seres humanos na trajetória de internações psiquiátricas - , transformando-os em instalações surpreendentes. (...).   Um ser que não teve ateliê, nem incentivo por parte do meio, construiu uma obra impulsionado por seu interior, de uma extrema contemporaneidade, rompendo e pondo em questão os próprios meios de que a arte se faz. "    Luiz Carlos Mello            " Se é um manto ou não, pode parecer uma questão sem importância.   Não obstante, a designação 'manto' encobre a natureza do arquétipo social sobre a qual Bispo do Rosário elaborou.   Esta obra nasce da imitação de uma peça do vestuário da nobreza: parte da roupa de um rei, ou de um general do exército real.    Só o paletó interessa, pois nele se concentram os elementos simbólicos ostentatórios de poder e nobreza, como dragonas, bordados, condecorações. (...) o que temos aqui é a apropriação pelo artista de um objeto-símbolo que a seus olhos traduz riqueza, beleza, nobreza. (...).    Vista deste ângulo, esta obra de Bispo do Rosário é, como expressão artística.   Uma manifestação surpreendente por sua originalidade e força semântica. "     Ferreira Gullar

Arthur Bispo do Rosário - Parte 11


  Histórico - Nascimento e morte: 1911-Japaratuba-16 de março.   Segundo registros da Light, onde trabalha entre 1933 e 1937, nasce em 16 de março de 1911.   Nos registros da Marinha de Guerra do Brasil, onde serve entre 1925 e 1933, consta 14 de maio de 1909.   1989-Rio de Janeiro-5 de julho     Cronologia - Artista Visual: 1925 - 1926, Rio de Janeiro RJ - Ingressa na Escola de Aprendizes da Marinha.   1925-1989, Rio de Janeiro RJ, vive nessa cidade.   1926-1933, Rio de Janeiro RJ - marinheiro e pugilista.  Consta que foi campeão brasileiro e sul-americano de boxe pela marinha na categoria peso leve.   1933-1937, Rio de janeiro RJ - Trabalha na Light como lavador de bonde e borracheiro.  Um acidente de trabalho leva-o a mover uma ação judicial quando conhece o advogado Humberto Leone.   1937-1938, Rio de Janeiro RJ - Trabalha na casa do advogado Humberto Leone, fazendo todo o tipo de trabalho doméstico e negando-se a receber salário.   No dia 22 de dezembro de 1938, teria visto Cristo descer no quintal da casa acompanhado de sete anjos azuis.   Com a visão tudo mudaria em sua vida, proclama-se Jesus Cristo e é internado no Manicômio da Praia Vermelha.    1939 - Rio de Janeiro RJ, produz por volta de mil objetos com elementos de seu cotidiano, como roupas e lençóis bordados (estandartes) e objetos recobertos com linha  azul desfiada de uniformes dos internos " para ofertar ao Todo-Poderoso no dia do Juízo Final ".    1944-1948 - Rio de Janeiro RJ, trabalha como porteiro de hotel, em escritório de advocacia e como guarda-costas do senador Humberto Marinho.     1960 - Rio de Janeiro RJ, no início dos anos 60 trabalha como " faz tudo " numa clínica pediátrica, onde reside isolado no sótão e desenvolve grande parte de sua produção artística.    1964-1989 - Rio de Janeiro, volta para a colônia e passa a " reconstruir o universo " por meio de objetos.    1980 - Rio de Janeiro RJ, Samuel Wainer Filho realiza matéria para o programa Fantástico, da TV Globo.  Hugo Denizart realiza o curta-metragem O Prisioneiro da Passagem.   1989 - Rio de Janeiro RJ, fundada a Associação dos Artistas da Colônia Juliano Moreira com o objetivo principal de preservar e promover as obras de Arthur Bispo do Rosário.    1992 - Rio de Janeiro RJ, tombamento integral das obras do artista pelo Instituto Estadual do Patrimônio Artístico e Cultural.     1993 - Brasil, primeira exibição na televisão em rede nacional do média- metragem  O Bispo do Rosário Passado: Arqueologias Emocionais, de Helena Rocha e Miguel Przewodowski.     1996 - Rio de Janeiro RJ, lançamento do livro Arthur Bispo do Rosário: O Senhor do Labirinto, de Luciana Hidalgo.      1999 - Aracaju SE , o grupo de teatro sergipano Imbuaça monta a peça Senhor dos Labirintos, reconstruindo a vida e o universo do artista.    Exposições coletivas: 1982 - Rio de Janeiro RJ, A Margem da Vida, no MAM-RJ.     Exposições póstumas: 1989 - Rio de Janeiro RJ, registros de Minha Passagem pela Terra, na EAV-Parque Lage.   1990 - Belo Horizonte MG, registros de Minha Passagem pela Terra, no Museu de Arte da Pampulha.     1990 - Porto Alegre RS, registros de Minha Passagem pela Terra, no Museu de Arte do Rio Grande do Sul Ado Malagoli.     1990 - São Paulo SP, registros de Minha Passagem pela Terra, no MAC-USP.     1991 - Estocolmo (Suécia ) - Viva Brasil Viva, no Kulturhuset, Konstavdelningenoch Liljevalchs Konsthall - sala especial.    1992 - Rio de Janeiro RJ, Reciclo, na Fundação Nacional de Arte.   Centro de Artes.     1992 - Rio de Janeiro RJ, Transformando e Recriando os restos: o lixo passado a limpo, no Paço Imperial.     1993 - Rio de Janeiro RJ, Arthur Bispo do Rosário: inventário do universo, no MAM-RJ.     1994 - Rio de Janeiro RJ, Bispo do Rosário, na Galeria Ibeu Copacabana.     1994 - Rio de Janeiro RJ, Bispo do Rosário, na Galeria Ibeu Madureira.     1995 - Veneza (Itália), 46 Bienal de Veneza.    1996 - Rio de Janeiro RJ, O Navegante, no MNBA.     1997 - Cidade do México (México) - Así Está la Cosa: instalación y arte objeto en America Latina, no Centro Cultural Arte Contemporáneo.     1998 - Brasília DF, Eu Preciso Destas Palavras.   Escrita. , na CEF.     1999 - São Paulo SP, Cotidiano-Arte. Objeto Anos 90, no Itaú Cultural.    1999 - São Paulo SP,  Por que Duchamp, no Paço das Artes.    1999 - São Paulo SP, Transcendências: caixas do ser, na Casa das Rosas.    1999 - Vitória ES - Eu Vim, na Universidade Federal.   Galeria de Arte Espaço Universitário.    2000 - Rio de Janeiro RJ, Brasil + 500 Mostra do Redescobrimento.   Imagens do Inconsciente, no Paço Imperial.    2000 - Rio de Janeiro RJ, Brasilidades, no Centro Cultural Light.   2000 - São Paulo SP, Brasil + 500 Mostra do Redescobrimento.   Imagens do Inconsciente, na Fundação Bienal.    2001 - Nova York ( Estados Unidos ), Brazil: body and soul, no Solomon R. Guggenheim Museum.    2002 - São Paulo SP, Ópera Aberta: celebração, na Casa das Rosas.    2003 - Paris ( França ), La Clé des Champs et Arthur Bispo do Rosário, na Galerie Nationale du Jeu de Paume.    2003 - Rio de Janeiro RJ, Arte em Movimento, no Espaço BNDES.    2003 - Rio de Janeiro RJ, Bandeiras do Brasil, no Museu da República.    2003 - São Paulo SP, Ordenação e Vertigem, no CCBB.    2004 - São Paulo SP, Brasileiro, Brasileiros, no Museu Áfro-Brasil.

Arthur Bispo do Rosário - Parte 10

Comentário crítico: O passado de Arthur Bispo do Rosário é praticamente desconhecido.   Sabe-se apenas que era negro, marinheiro, pugilista, lavador de ônibus e guarda-costas.   Nas vésperas do Natal de 1938 é internado no Hospital Nacional dos Alienados , na Praia Vermelha, no Rio de Janeiro, após um delírio místico.  Com diagnóstico de paranóico-esquizofrênico, é transferido no ano seguinte para a Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá.   Entre muitas permanências e saídas, vive mais de 40 anos na Instituição, onde executa a maior parte de sua obra.   Os trabalhos de Bispo diversificam-se entre justaposições de objetos e bordados.   Nos primeiros, utiliza geralmente utensílios do cotidiano da Colônia, como canecas de alumínio, botões, colheres, madeira de caixas de fruta, garrafas de plástico, calçados; e materiais comprados por ele ou pessoas amigas.   Para os bordados usa os tecidos disponíveis, como lençóis ou roupas, e consegue os fios desfiando o uniforme azul de interno.  Prepara, com seus trabalhos, uma espécie de inventário do mundo para o dia do Juízo Final.   Nesse dia se apresentaria a Deus, com um manto especial, como representante dos homens e das coisas existentes.   O manto bordado traz o nome das pessoas conhecidas, para não se esquecer de interceder junto a Deus por elas.   Bispo faz também estandartes, fardões, faixas de miss, fichários, entre outros, nos quais borda desenhos, nomes de pessoas e lugares, frases com respeito a notícias de jornal ou episódios bíblicos, reunindo-os em uma espécie de cartografia.   A criação das peças, para ele, é uma tarefa imposta por vozes que dizia ouvir.   No início da década de 1980, com as questões levantadas pela arte contemporânea com a anti-psiquiatria e as novas teorias sobre a loucura, os trabalhos de Bispo começam a ser valorizados e integrados ao circuíto de arte.   Em 1980, uma reportagem do Fantástico, da TV Globo, sobre a situação da Colônia Juliano Moreira, mostra suas obras, agrupadas no quartinho em que vive.   No mesmo ano, o psicanalista e fotógrafo Hugo Denizart realiza o filme O Prisioneiro da Passagem - Arthur Bispo do Rosário.   Com a divulgação, veio o reconhecimento artístico das obras, que contribui para a sua participação. em 1982, na mostra A Margem da Vida, no Museu de Arte Moderna do Rio de janeiro - MAM-RJ, com trabalhos de presidiários, menores infratores, idosos e internos da Colônia.   Posteriormente é realizada sua primeira exposição individual, também no MAM-RJ.  O crítico de arte Frederico Morais escreve sobre seu trabalho, ligando-o à arte de vanguarda, à arte pop, ao novo realismo e especialmente à obra Marcel Duchamp (1887-1968).   Em 1995, com uma vasta seleção de peças, Bispo representa o Brasil na Bienal de Veneza e obtém reconhecimento internacional.   Sua obra torna´se uma das referências para as gerações de artistas brasileiros dos anos 1980 e 1990.