Na imagem que fica acima da porta principal, entre as duas torres da capela, Aleijadinho gravou um alto-relevo que representa São Francisco de Assis, ajoelhado, tendo a visão de Monte Alverne. O episódio ocorreu em 1224, na Toscana, Itália. Durante uma estadia no eremitério de Monte Alverne, Francisco de Assis vê um anjo de seis asas que paira acima dele pregado numa cruz. Duas asas elevam-se sobre a cabeça do anjo, simbolizando intenção pura e ação correta. Duas outras asas servem para voar, e mais duas cobrem seu corpo. Diante dessa visão, Francisco de Assis é tomado de alegria e tristeza ao mesmo tempo. Ao erguer-se dali, o pobre santo sente no corpo as marcas dos quatro pregos da cruz. São as chagas do Cristo e o anúncio da Paixão de Francisco, que concluiria com sua morte dois anos depois. Será possível que Aleijadinho, cujo corpo no final da sua participação nessa obra já começava a se despedaçar, tivesse um sentimento de identidade ou de antecipação em relação aos sofrimentos de São Francisco (pergunta). Parece possível. A visão de Monte Alverne é seguramente uma das obras mais importantes de Aleijadinho. Também é certo que o sofrimento pessoal e as obras artísticas desse brasileiro têm um grande significado místico. Um aspecto dominante da obra de Aleijadinho e sua equipe está nas esculturas de 12 profetas, construídas em pedra-sabão em 1800 e 1805, no pátio frontal da Igreja de Bom Jesus de Congonhas do Campo. São quatro profetas maiores - Isaías, Jeremias, Ezequiel e Daniel - e oito profetas menores. Todos eles anunciam a vitória da fraternidade universal proposta pela tradição cristã. Aleijadinho não fez fortuna. Esse profeta da alma brasileira era descuidado na administração do dinheiro e foi roubado muitas vezes. Além disso, dividia seus ganhos pela metade com o escravo Maurício e dava muita esmola aos pobres. No fim da vida libertou seus escravos. Em 1812, o artista ficou quase totalmente cego. Então foi viver na casa da sua nora Joana Francisca, que cuidou dele com devoção. O final chegou aos 76 anos de idade, dia 18 de novembro de 1814. Notas: Veja Ideias Filosóficas no Barroco Mineiro, Joel Neves, Ed. Itatiaia, BH, 1986, p. 31. Romanceiro do Aleijadinho, Stella Leonardos, Ed. Itatiaia, BH, 1984. Aleijadinho de Vila Rica, Waldemar de Almeida Barbosa, Ed. Itatiaia, BH, 1984, 95 pp. em tamanho ofício, pp. 32 e 33. São Francisco de Assis, Escritos e Biografias, Ed. Vozes, RJ, 1991, ver p. 246. Sobre as asas ligadas à cabeça, ver p. 263. Durante o ciclo do ouro, Minas Gerais tornou-se um foco de sentimento de brasilidade. Várias décadas antes do grito do Ipiranga, a independência do nosso país foi proclamada no plano abstrato do ideais. Em Ouro Preto veio à luz o sonho ainda hoje incompleto de que o Brasil seja plenamente independente, próspero e guiado por um sentimento de justiça para com todos. No século 18 não havia separação entre arte, indústria e artesanato. O conceito de beleza estava ligado ao que é útil e funcional no cotidiano, e quase todo artista era, ao mesmo tempo, um artesão e um operário. No plano político, é verdade que o barroco europeu foi absolutista. Em uma arte centralizadora, que fortalecia o poder dos papas e das monarquias e negava a influência do Renascimento. Mas na colônia brasileira a realidade foi diferente. O barroco das Minas Gerais tem um sabor criativo, renovador, inquietante - quase revolucionário por seu compromisso com a terra dos brasileiros.
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sexta-feira, 8 de setembro de 2017
Parte 3 - Aleijadinho, o profeta da alma brasileira.final
Na imagem que fica acima da porta principal, entre as duas torres da capela, Aleijadinho gravou um alto-relevo que representa São Francisco de Assis, ajoelhado, tendo a visão de Monte Alverne. O episódio ocorreu em 1224, na Toscana, Itália. Durante uma estadia no eremitério de Monte Alverne, Francisco de Assis vê um anjo de seis asas que paira acima dele pregado numa cruz. Duas asas elevam-se sobre a cabeça do anjo, simbolizando intenção pura e ação correta. Duas outras asas servem para voar, e mais duas cobrem seu corpo. Diante dessa visão, Francisco de Assis é tomado de alegria e tristeza ao mesmo tempo. Ao erguer-se dali, o pobre santo sente no corpo as marcas dos quatro pregos da cruz. São as chagas do Cristo e o anúncio da Paixão de Francisco, que concluiria com sua morte dois anos depois. Será possível que Aleijadinho, cujo corpo no final da sua participação nessa obra já começava a se despedaçar, tivesse um sentimento de identidade ou de antecipação em relação aos sofrimentos de São Francisco (pergunta). Parece possível. A visão de Monte Alverne é seguramente uma das obras mais importantes de Aleijadinho. Também é certo que o sofrimento pessoal e as obras artísticas desse brasileiro têm um grande significado místico. Um aspecto dominante da obra de Aleijadinho e sua equipe está nas esculturas de 12 profetas, construídas em pedra-sabão em 1800 e 1805, no pátio frontal da Igreja de Bom Jesus de Congonhas do Campo. São quatro profetas maiores - Isaías, Jeremias, Ezequiel e Daniel - e oito profetas menores. Todos eles anunciam a vitória da fraternidade universal proposta pela tradição cristã. Aleijadinho não fez fortuna. Esse profeta da alma brasileira era descuidado na administração do dinheiro e foi roubado muitas vezes. Além disso, dividia seus ganhos pela metade com o escravo Maurício e dava muita esmola aos pobres. No fim da vida libertou seus escravos. Em 1812, o artista ficou quase totalmente cego. Então foi viver na casa da sua nora Joana Francisca, que cuidou dele com devoção. O final chegou aos 76 anos de idade, dia 18 de novembro de 1814. Notas: Veja Ideias Filosóficas no Barroco Mineiro, Joel Neves, Ed. Itatiaia, BH, 1986, p. 31. Romanceiro do Aleijadinho, Stella Leonardos, Ed. Itatiaia, BH, 1984. Aleijadinho de Vila Rica, Waldemar de Almeida Barbosa, Ed. Itatiaia, BH, 1984, 95 pp. em tamanho ofício, pp. 32 e 33. São Francisco de Assis, Escritos e Biografias, Ed. Vozes, RJ, 1991, ver p. 246. Sobre as asas ligadas à cabeça, ver p. 263. Durante o ciclo do ouro, Minas Gerais tornou-se um foco de sentimento de brasilidade. Várias décadas antes do grito do Ipiranga, a independência do nosso país foi proclamada no plano abstrato do ideais. Em Ouro Preto veio à luz o sonho ainda hoje incompleto de que o Brasil seja plenamente independente, próspero e guiado por um sentimento de justiça para com todos. No século 18 não havia separação entre arte, indústria e artesanato. O conceito de beleza estava ligado ao que é útil e funcional no cotidiano, e quase todo artista era, ao mesmo tempo, um artesão e um operário. No plano político, é verdade que o barroco europeu foi absolutista. Em uma arte centralizadora, que fortalecia o poder dos papas e das monarquias e negava a influência do Renascimento. Mas na colônia brasileira a realidade foi diferente. O barroco das Minas Gerais tem um sabor criativo, renovador, inquietante - quase revolucionário por seu compromisso com a terra dos brasileiros.
Parte 2 - Aleijadinho, o profeta da alma brasileira.
Um dia, Antônio Francisco começou a perder os dedos dos pés. Depois de algum tempo, só podia andar de joelhos. Os dedos das mãos atrofiavam-se e curvavam-se, em alguns casos caíam. Restavam os polegares e os índices. Conta-se que a angústia e o desespero do artista fizeram com que ele próprio cortasse pedaços de suas mãos, usando para isso o formão com que trabalhava. Há diferentes teorias sobre a natureza da sua doença. Seria a zamparina, que causava deformidades e paralisia (pergunta). Ou era uma doença semelhante ao escorbuto (pergunta). Seria uma consequência de excessos amorosos, como asseguravam as comadres (pergunta). Com o agravamento da doença, as pálpebras dos olhos inflamaram-se e sua parte inferior ficava visível. O biógrafo Rodrigo Bretas conta que Aleijadinho perdeu quase todos os dentes. A boca entortou-se do modo como ocorre às vezes com os deficientes mentais. O queixo e o lábio inferiores ficaram caídos. O olhar do artista adquiriu uma expressão de ferocidade, que chegava a assustar quem o encarasse subitamente. Essa circunstância e a boca torta davam-lhe um aspecto medonho. A impressão causada por sua fisionomia tornava Antônio Francisco agressivo com as pessoas. Com os sentimentos feridos, ele ficava irritado até quando ouvia elogios: enxergava ironia oculta nas palavras amáveis de gente desconhecida. Embora fosse alegre e bem humorado entre os amigos, ele não tolerava a curiosidade do povo. Para evitar o constrangimento, trabalhava oculto. Mesmo que estivesse entre as quatro paredes de uma igreja, isolava-se do resto do salão por meio de lonas. Conta-se que certa vez um general - provavelmente Luís da Cunha Menezes decidiu observar de perto enquanto ele trabalhava em pedra. Aleijadinho não pôde afastar diretamente o visitante ilustre, mas fez cair tantas lascas de granito sobre o general que teve de se retirar. Os trabalhos eram feitos em equipe; Aleijadinho possuía um escravo africano chamado Maurício, que operava como entalhador e lhe era absolutamente leal. Além dele, dois outros escravos: Agostinho, também entalhador, e Januário, que guiava o burro em que o artista se deslocava pela cidade. Para não ser visto pelas pessoas, Aleijadinho ia de madrugada para o trabalho e dali só saía à noite. A medida que o sofrimento o forçava a amadurecer, o artista se elevava até uma percepção superior das coisas. Sua vida pessoal era uma crucificação. A ressurreição ocorria no mundo da arte. Entre os trabalhos famosos de Aleijadinho estão sua atuação na Igreja de Nossa Senhora do Carmo (Ouro Preto), na Igreja de Nossa Senhora do Carmo (Sabará) e na Igreja de São Francisco de Assis (Ouro Preto). A capela de São Francisco é considerada a melhor expressão da fase final do barroco mineiro. Nela, Aleijadinho foi também arquiteto e dirigiu a parte principal da obra, entre 1772 e 1779. Depois dessa data, outro mestre notável, Manuel da Costa Ataíde, fez grande parte das pinturas do interior.
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