Calendário 2019
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Vou por onde a arte me levar.
quarta-feira, 28 de setembro de 2016
A Contestação Juvenil - Parte 5 (Pausa).
Esta fotografia no Brasil, estão Eva Tudor, Tônia Carrero, Eva Wilma, Leila Diniz, Odete Lara e Norma Bengell, lutando contra a Censura em plena Ditadura. O escritor alemão Hermann Hesse (1877-1962) redige Peter Camenzind (Alma de Criança), onde acusa o pai de repressão, e Unterm Rad (Debaixo da Roda), argumentação contra a escola de caráter competitivo. O tchecoslovaco Franz Werfel (1890-1945) escreve Vatermord ( Parricídio ), título que explicita claramente o caráter rebelde da época expressionista, e seu compatriota Franz Kafka ( 1883-1924) concebe Briefan den Vater (Carta ao Pai), considerada a obra mais dura contra a repressão adulta. Os anos 20, a célebre " década do jazz ", constituem um período de violentos confrontos entre gerações. Outros se haviam já registrado, mas sem tamanha violência. A juventude fica na moda. Ser jovem tornar-se um valor que antes nunca fora: até então, a juventude havia sido uma mera fase de transição e de mimetismo. No entanto nos anos 20, a juventude não estava organizada globalmente. Ora, é neste ponto que cabe perguntar como terá surgido esta organização social entre jovens; porque aconteceu agora, precisamente no tempo presente, e não em qualquer outra época, como por exemplo, no começo dos anos 20, no momento em que, de todos os pontos de vista, a separação entre as gerações era ainda muito mais acentuada. Com efeito, nos anos 20 e 30, a juventude já havia tomado consciência de si mesma, mas carecia de poder. Em linhas gerais, pode-se dizer que reagiu face aos problemas nacionais e internacionais a partir do seu vigor juvenil, da sua alegria de viver, do seu gosto pelo presente fugaz, mas, apesar de tudo, não teve possibilidades de estabelecer uma alternativa global ao mundo dominado pelos adultos. Ao longo da primeira metade do século XX, a juventude rebelou-se contra a moral vitoriana imposta em toda a Europa e nos Estados Unidos durante a segunda metade do século passado. Tratava-se de uma moral puritana, severa, formalista, mais preocupada com as aparências que com os instintos e necessidades, eminentemente burguesa, mas de uma burguesia que já não lutava, antes, confortavelmente instalada no poder, se sentia satisfeita com a sua vitória e com os seus privilégios. A juventude opôs a esta moral de caráter urbano o amor pela natureza e pelos espaços livres; opôs, ao estilo sedentário e satisfeito, o gosto pela aventura e pelo perigo; ao formalismo opôs uma atitude instintiva, vital, descarada, à arte decadente, sólida e acadêmica, opôs a espontaneidade, a flexibilidade e a originalidade.
A Contestação Juvenil - Parte 4
Ganhadora do Prêmio Pulitzer em 1973 e a mais famosa fotografia de guerra de todos os tempos. Kim Phuc ( a garotinha nua ) corre ao longo de uma estrada perto de Trang Bang, no Sul do Vietnã, após um ataque aéreo com Napalm. Para sobreviver, Kim arrancou a roupa em chamas do corpo. Fotografia de Nick Ut.
A Contestação Juvenil - Parte 3
A rebelião em marcha: A escola é aquele lugar onde tenho que me beliscar continuamente para não adormecer. Porém eu e meus companheiros falamos sempre de cinco coisas: a " Bomba ", o " Vietnã ", Os direitos dos negros, A marijuana e nossa Vida sexual, opinava uma rapariga de 17 anos, estudante da cidade norte-americana de Berkeley em meados dos anos 60. As causas da rebelião juvenil não devem procurar-se apenas no mundo que rodeia os jovens, mas também neles mesmos. Após a Revolução Francesa, no início do século 19, fundaram-se numerosos clubes de jovens universitários, politicamente republicanos e revolucionários, embora continuassem a constituir uma minoria. Contudo, no fim deste século, eram já muitos os jovens integrados no sistema educativo e em organizações recreativas e culturais. Funda-se então na Alemanha o grupo dos Wandervógel ou " Aves Nômades " ( 1896 ), antecipação germânica, de caráter vitalista, dos Boy-Scouts, organização para-militar britânica, fundada posteriormente (1902-1903) por R.S.S Baden Powell ( 1857-1941) com o objetivo de reunir a juventude e lhe dar um sentido à vida, bem como ocupações nas horas e dias de ócio. Só as classes médias e, em parte, a classe alta, participavam em tais movimentos; os jovens operários e camponeses encontravam-se demasiado ocupados pela sobrevivência e muito agarrados à tradição para se ligarem a eles. Não obstante, no século XX, também os filhos das classes populares entram para as escolas e se interessam pela cultura e pelos desportos. Os partidos políticos criam seções juvenis . Na Russia, após a revolução de 1917, a juventude começou a agrupar-se nos Konsomoles. Na Alemanha e na Itália, com o fascismo no poder, os dirigentes políticos respectivos organizaram seções juvenis dedicadas às tarefas do partido e outro tanto fizeram os partidos socialistas e comunistas de todo o mundo.
quinta-feira, 15 de setembro de 2016
A contestação juvenil - Parte 2
Provavelmente, uma organização tipo semelhante a comitês, conselhos ou grupos locais e todos os gêneros de organização que depois possa coordenar-se a um nível mais geral. No entanto, como já disse, suas formas ou estruturas estão ainda por estudar. A diferença entre o movimento de Berkeley e os movimentos franceses e alemães, entre eles existem uma considerável diferença que, na minha opinião, se deve sobretudo ao fato de que nos Estados Unidos falta uma sólida e duradoura tradição marxista e socialista. Por outro lado, essa tradição existe na França e na Alemanha, o que proporciona a base para um movimento muito mais efetivo e extenso que o que se dá em outro país. De qualquer modo, não é a tradição marxista o único fator; a tradição cultural e intelectual também influi como um todo, particularmente no campo da literatura. Não foi por acaso, que palavras de ordem surrealistas, tais como " a imaginação ao poder ", desempenharam um importante papel no movimento francês e também no movimento alemão e, por outro lado, não tiveram influência nos Estados Unidos. Eu diria que o movimento francês é mais radical que o norte - americano. E digo mais radical porque o primeiro aponta para uma mudança total nas esferas intelectual e material, e não só na área das instituições e das relações sociais. O movimento da juventude na França aponta para o que foi denominado uma qualidade de vida radicalmente diferente ", o que afetaria todas as relações humanas em todas as dimensões da sociedade. Ora é isto que interessa realmente à humanidade. Berkeley fica na Califórnia e aqui o contraste social é especialmente agudo: por um lado, o luxo e o conforto das elites; por outro, a miséria e a pobreza derivadas das condições de vida dos trabalhadores emigrados e dos assalariados. É um contraste escandaloso, muito mais evidente que em outros lugares do país. Apesar de não ser um especialista em questões do chamado Terceiro Mundo, posso dizer-lhe que de fato me atrai especialmente a atenção o papel tão específico que neles desempenham os estudantes, talvez hoje os mais radicais do mundo, acicatados pela pressão que o imperialismo exerce nos seus países. No entanto, em conjunto, a estrutura da revolução comunitária no Terceiro Mundo move-se ainda sobre fundamentos tradicionais, ou seja, trata-se de uma revolução que responde a uma situação de pobreza. Nos países capitalistas que atingiram um elevado grau de desenvolvimento, a revolução não surgiria da miséria e das privações, mas sim da necessidade de humanização e pela degradação das forças produtivas... Eu diria que o fermento revolucionário se encontra disseminado em amplos setores da escala social e não só entre as classes trabalhadoras, principalmente nos estados unidos. O impulso em direção a uma mudança radical encontra-se também, evidentemente, entre as classes trabalhadoras, sobretudo entre os jovens trabalhadores e os trabalhadores de raça negra. Mas, em seu conjunto, e nos Estados Unidos, as classes trabalhadoras não são hoje, em verdade uma classe revolucionária. Atualmente, já não é possível isolar uma classe social e dizer que nela e só nela se encontram os fatores e os indivíduos que se inclinam para a revolução. O potencial revolucionário é muito mais amplo e muito mais profundo. Os estudantes estão hoje na primeira linha. Formam até uma espécie de vanguarda. Mas, em última instância , creio que Marx tinha razão e que, apesar de tudo, a revolução não pode materializar-se sem a participação das classes trabalhadoras, que, caso seja necessário, é o único sujeito social capaz de deter o processo de produção e reprodução. Efetivamente muitos críticos censuraram-me por considerar a ciência como um meio de domínio. No entanto, é um fato que esta se converteu em um instrumento de destruição e de domínio, mas não em razão da lógica que lhe é inerente, antes por causa da servidão da ciência perante os interesses das classes dominantes. De qualquer modo, ainda que não seja seu autor, também sustento a tese de que a ciência é um fator indispensável para a construção de uma sociedade melhor. ( por Herbert Marcuse ).
Livro " A contestação juvenil " - Biblioteca Salvat De Grandes Temas - Livros GT ( Um pouco sobre ). Parte 1
É muito difícil concretizar quando e onde começou o movimento da rebelião juvenil. Por comodidade, pode se afirmar que foi durante os anos 60. Primeiro registrou-se um movimento na Universidade de Berkeley a favor da liberdade de expressão; em seguida, no Sul dos Estados Unidos produziu-se um movimento a favor dos direitos civis. Creio que estes dois fatos constituem as principais fontes do movimento juvenil no princípio da década de 60. Depois, a ação foi crescendo e atingiu seu apogeu em 1968 e 1969, podendo se dizer que a partir de então começou a declinar, pelo menos na aparência. Registraram-se menos ações espetaculares, menos manifestações relevantes, menos julgamentos escandalosos. Muita gente apressou-se a dizer que o movimento juvenil, o movimento juvenil radical, tinha acabado, e asseguravam que estava morto. Da minha parte não creio que tenha morrido. Opino que o movimento se encontra num período ou fase de orientação, de exame sobre si mesmo, de reorganização. Os jovens radicais fizeram uma pausa para tentar descobrir a razão de seus equívocos, de porquê a sociedade é como é e, na base desses conhecimentos, tentar projetar o que eles podem fazer para remediar tal estado de coisas. Outros, tal como os jovens das comunas, tratam de estabelecer relações não alienadas entre os seres humanos. O movimento em conjunto continua vivo. E continua vivo tanto na sua crítica à sociedade existente como na sua ação prática. No meu entender, a fraqueza atual do movimento repousa em dois importantes fatores: a repressão intensificada pelo sistema, coincidente com o estabelecimento da administração de Richard Nixon, e com uma grande decepção e desilusão devida a que a mudança radical tão ansiada não chegou... Quando de certo modo se acreditava que a revolução estava quase ao virar da esquina, verificou-se, em vez disso, uma nova estabilização, talvez provisória, do sistema capitalista. São estas algumas das principais razões do enfraquecimento do movimento, e por isto, ele se encontra numa fase de reorganização. De momento, uma das tarefas mais importantes desta fase consiste em encontrar novas formas de organização realmente eficazes. Tal organização já não pode ser a dos antigos partidos centralizados de massas, antes deve ser uma organização muito mais descentralizada, que deixe mais campo livre à espontaneidade... ( Por Herbert Marcuse ).
terça-feira, 30 de agosto de 2016
" Os Subterrâneos - Jack Kerouac - Biografia - Final.
Jack Kerouac, principal escritor da geração beat, nasceu em Lowell, Massachussets, EUA, no dia 12 de março de 1922. Trabalhou em tudo, foi ajudante de cozinha, jornalista esportivo, apanhador de algodão, vigia de incêndios florestais, limpador de convés, ajudante de mudanças, guarda- freio nas linhas férreas, aprendiz de metal laminado no Pentágono, etc. Escreveu sua primeira novela aos onze anos e fez longos " jornais " que cobriam seu mundo esportivo: as corridas de cavalo, o jogo de baseball com cartas inventado por ele mesmo e muitos outros. Aos 17 anos resolveu ser escritor, influenciado por Sebastian Sampas e, aos 18, decidiu ser um viajante solitário ao ler a vida de Jack London. Escrevia tanto em casa, quanto na estrada, como vagabundo, ferroviário, exilado mexicano ou viajante pela Europa. Seu primeiro romance formal foi The Town and the City, então descobriu a prosa " espontânea ": escreveu The Subterraneans em três noites e On the Road em três semanas. Também escreveu poemas, México City Blues. Sempre teve suas próprias ideias e considerou escrever e pregar a bondade universal seus deveres na Terra. Não se dizia beat, mas um estranho e solitário católico, louco e místico...
'Howl' by Allen Ginsberg (with subtitles) - HQ
"Howl ", um poema escrito por Allen Ginsberg em 1955, o poema é considerado uma das grandes obras da geração Beat. Mais tarde foi publicado pelo poeta Lawrence Ferlingheti da City Lights Books. O poema foi considerado obsceno, e Ferlingheti foi preso, em 3 de outubro de 1957, o juiz decidiu que o poema não foi obsceno. A animação é por Eric Drooker.
" Os Subterrâneos - Jack Kerouac " - Notas do tradutor - Parte 7
(1) Bop - o mesmo que bebop, o estilo moderno de jazz, surgido nos anos quarenta, caracterizado pelo virtuosismo instrumental. O grande pioneiro do estilo foi Charlie " Bird " Parker. (2) North Beach - bairro boêmio de São Francisco. (3) Beat - característico dos beatniks ou hípsters, boêmios dos anos cinquenta, o mesmo que hip ( termo do qual derivou hippie, nos anos sessenta ). (4) Casus in eventu est - (latim) " O caso ainda está por resolver. " (5) South San Francisco - subúrbio proletário de São Francisco. (6) Marquereaux - (francês) cafetões. (7) Drugstore - drogaria, onde, nos Estados Unidos, são vendidos diversos tipos de artigos, além de produtos farmacêuticos.
domingo, 21 de agosto de 2016
" Os Subterrâneos - Jack Kerouac " - Parte 6
Jack Kerouac fez com a nossa prosa imaculada algo de que ela talvez jamais venha a se recuperar. Apaixonado pela linguagem, ele sabe usá-la. Virtuose inato que é, sente prazer em desafiar as leis e convenções da expressão literária que truncam uma comunicação verdadeira e livre entre leitor e autor. Como ele próprio afirmou com tanta felicidade em " The Essentials of Spontaneous Prose " - " Primeiro satisfaça a si próprio, que o leitor não terá como não receber um choque telepático e a excitação do significado por obra das mesmas leis que atuam em seu próprio cérebro humano ". Sua integridade é tal que ele consegue , às vezes parecer estar indo contra seus próprios princípios. ( Câncer! Ora! Que diferença faz, desde que se tenha saúde! ). Sua cultura, que está longe de ser superficial, ele deixa aparecer como se fosse coisa irrelevante. Isso tem importância ( pergunta ). Nada tem importância. Tudo é igualmente importante ou sem importância, de um ponto de vista verdadeiramente criativo. Mas ele nunca é frio. É quente, em brasa. E por mais que desbunde e viaje, está sempre perto, sempre amigo, irmão de sangue, alter ego. Ele está em toda parte, vestido de Todomundo. Observador e observado. " Um santo prosador, meigo e inteligente ", diz Allen Ginsberg a seu respeito. Dizemos que o poeta, ou gênio, está sempre à frente de seu tempo. É verdade, mas só porque ele vive tão completamente o seu tempo, " Pra frente! ", ele insiste. " Já vimos isso tudo um bilhão de vezes antes ". (" Avançar sempre ! ", já dizia Rimbaud. ) Mas os retrógrados não entram nessa, ( Até hoje ainda não chegaram a Isidore Ducasse ). E aí o que eles fazem (pergunta). Derrubam-no de seu galho, e o matam de fome, e lhe quebram os dentes a pontapés e o obrigam a engoli-los à força. Às vezes são menos misericordiosos - fingem que ele não existe. Em tudo que Kerouac escreve - aqueles personagens estranhos, que estão sempre em toda a parte, cujos nomes podem ser lidos de trás para a frente ou de cabeça para baixo, aqueles lindos, nostálgicos, íntimos e grandiosos panoramas da América, aquelas viagens alucinantes em carros envenenados e vagões de carga abertos - mais a linguagem que ele usa ( à la Gautier em marcha à ré ) para descrever suas " visões terreno-celestiais ", mesmo os leitores de time e Life e Seleções e quadrinhos hão de perceber a relação que há entre essas extravagâncias hipergônicas e flores perenes como o Asno de Ouro, o Satiricon e Pantagruel. O bom poeta - no caso, o " poeta bop espontâneo "- está sempre ligado nos idiomatismos de seu tempo - o balanço, o compasso, o ritmo metafórico disjuntivo que vem tão depressa, tão furioso, tão embolado, tão incrivelmente ainda deliciosamente louco que, quando transportado para o papel, ninguém o reconhece. Ninguém - quer dizer, só os poetas. " Foi ele que inventou " - é o que dizem as pessoas, insinuando que o autor está se exibindo. O que deviam dizer era: " ele captou ". Ele captou, ele sacou, ele colocou. ( Pega você, Nazz! " ). Quando alguém perguntar " Onde é que ele arruma isso (pergunta), responda: " Com você! ". Cara, ele passou a noite toda acordado ouvindo com olhos e ouvidos. Uma noite de mil anos. Ouviu no útero materno, ouviu no berço, ouviu na escola, ouviu no pregão da bolsa de valores da vida, onde se trocam sonhos por ouro. E, vou te contar, ele está de saco cheio de ouvir isso. Ele quer tocar, pra frente. Ele quer se mandar. Mas você deixa ( pergunta ). Vivemos na era dos milagres. Foram-se os dias do sossega-leão, os tarados estão na pior, os ousados trapezistas quebraram as vértebras. Era de maravilhas, quando os cientistas, em cumplicidade com os sumos sacerdotes do Pentágono, ensinam de graça a técnica da destruição mútua, porém total. Progresso, pois sim! Faz disso um romance legível, se conseguir. Mas não me vem reclamar das misturas de vida com literatura se o seu negócio é morte. Nem vem com essa de literatura direitinha e " limpa " - sem lixo radioativo. Que falem os poetas. Eles são beat mas não são os donos da Bomba. Pode crer: não tem nada limpo, nada saudável, nada promissor nessa nossa era de maravilhas - só o cantá-la. E a última palavra provavelmente vai ser dos Kerouac da vida. Big Sur, Califórnia Por: Henry Miller
" Os Subterrâneos - Jack Kerouac " - Parte 5
Seu biógrafo Charles E. Jarvis acha que o fato de Os Subterrâneos ser seu relato mais fiel e confessional, e ao mesmo tempo o mais Beat, não passa de uma " monumental ironia ". A fidelidade é relativa, como aliás em toda criação literária. Há um depoimento de Corso ( para Jarvis ), segundo o qual Mardou não tivera tanta importância assim, ela fora mais uma transa, uma companheira eventual de cama de Jack. O testemunho é útil para entender o processo criativo de kerouac. Mardou é protagonista de Os Subterrâneos, não por sua importância como caso amoroso, mas como símbolo e marco de uma trajetória. DostoievsKiano, Kerouac procurou a santidade no submundo. O uso recorrente das expressões " santo ", " santidade " e " celestial " no seu texto não é apenas um recurso literário, mas a expressão da sua obsessão. Proustiano, queria recuperar o passado, transformar suas memórias em algo de mais concreto, através de textos que são uma inovação ou um exorcismo. Leitor de Céline, sabia que era necessário mergulhar fundo no seu tempo e descrevê-lo em traços precisos. Fascinado por Whitman e Rimbaud, queria a amplidão das viagens e aventuras. Herdeiro da tradição de Jack London e Melville, sentia a atração pelo infinito do mar. Por isso, foi trabalhar na marinha mercante em 43 e escreveu relatos melvillianos de viagem. Assim como os personagens de Melville, e de Kafka, sentia-se oprimido pela burocracia e pela vida regrada, não aguentou o exército ( foi dispensado como paranoico ) nem a disciplina da universidade. Ele queria uma outra realidade, mas, ao contrário dos seus antecessores do século dezenove, não a encontrou nas viagens. Não havia mais paraísos idílicos a serem descobertos. Ele buscou o outro, mas sempre acabava se defrontando com a máscara imutável do Mesmo. Jack Kerouac revive a um dos mitos fundantes da literatura: a volta à origem, a reconquista de um tempo primordial. Para entender melhor sua busca, bem como a constelação simbólica sobre a qual repousa sua obra, é preciso voltar à sua infância numa comunidade de " canuks ", franco-canadenses católicos radicados em Massachusetts. Esse era seu verdadeiro mundo, que ele idealizava , buscava e tentava recuperar. Tanto é, que dos seus romances seu preferido era Visions of Gérard, onde ele vai mais longe na evocação e na busca do que perdera. Assim como, para muitos comentaristas, sua obra mais interessante é Dr. Sax, igualmente evocativo, mas alegórico: o desdobramento de um sonho relatado em On the Road, o combate de um mago, inspirado em William Burroughs, contra a serpente mítica do mal. A vida de Jack transcorreu sob o signo da perda e da solidão. Perda do seu irmão Gérard, morto aos quatro anos e, na sua obra, símbolo da inocência, paradoxalmente projetado em Neal Cassady, que, para Jack, era um santo. Perda da sua língua natal, o francês ( ele só foi falar inglês na escola). Nos anos 30, seu pai Leo perdeu sua gráfica e suas posses numa inundação. Seu melhor amigo de infância, George Sampas ( irmão de sua mulher Stella ) morreu na guerra. É como se a inundação do rio Merrimack em 1936 fosse, simbolicamente, uma correnteza levando embora seus entes queridos, sua língua natal, seus amigos e seus laços comunitários. Sua obra é uma tentativa da nadar contra essa correnteza, contra o tempo. Uma viagem impossível, que o consumiu e esgotou. A correnteza acabou jogando-o na margem. A crônica dos seus últimos anos é patética: sempre bêbado, dialogando com fantasmas, repetindo variações do mesmo monólogo. Jean-Louis Lebris de kerouac, Jack para o mundo, não é o único derrotado em vida e vitorioso no plano da criação literária. Essas contradições, impasses e paradoxos não são apenas um drama pessoal. Sua obra, por mais particular que seja, é também universal, espelho de todos nós. Em cada um dos seus leitores também está , talvez adormecido, o Beat aventureiro e o adulto que quer recuperar a infância. A luta e a derrota contra o tempo, a contradição entre o sujeito e seu mundo: aí estão temas que não são exclusivos de Kerouac, porém o fermento da criação literária, aspectos dessa coisa contraditória que é a própria condição humana. Por: Cláudio Willer
sábado, 20 de agosto de 2016
" Os Subterrâneos - Jack Kerouac " - Parte 4
Kerouac era uma personalidade dividida e isto se reflete na sua relação com mulheres. Ele só conseguia dois tipos de relação. Uma, breve, intensa e sensual, com figuras atípicas, marginalizadas e discriminadas como Mardou, Tristessa e a mexicana Terry de On the Road, outra, com alguém que fosse o prolongamento da sua mãe e da sua família, como Stella Sampas, com quem se casou em 1962 e viveu até o fim, ambos cuidando de " memere " Gabrielle, e que foi sua namorada de juventude em Lowell. Seus dois casamentos anteriores não duraram, juntos, mais que um ano, o primeiro, de 1945, dois meses. A mesma divisão aparece em outros aspectos da sua vida. Ele sempre escolhia os extremos. Ou a agitação das festas e reuniões Beat de Nova Iorque e San Francisco, as viagens frenéticas pelo país em companhia do Loquaz e acelerado Neal Cassady, ou então a reclusão e o silêncio, como no final de Dharma Bums ( 1957), relato do seu retiro como eremita por dois meses em Desolation Peak. O tema é retomado em Desolation Angels ( 1956 ), escrito antes de Dharma , mas relatando fatos posteriores, na sequência da mesma peregrinação budista. Ele era mesmo um solitário, e não é por acaso que um dos seus livros de viagem se chama Lonesome Traveler ( 1960 ), Viajante Solitário. A fama, depois de 1957, o perturbava tremendamente. De um lado, não se sentia ajustado à margem de arauto Beat, ao que as pessoas esperavam dele, a começar pelo fato de ele não ser mais o rapaz retratado em On the Road, cuja ação transcorrera dez anos antes ( o livro bateu um record de fila de espera nas editoras: seis anos, do seu término até a saída ). A vida como marginal inédito se adequava mais a ele, como escritor famoso, era obrigado a conviver com uma sociedade com o qual pouco tinha a ver. Havia dois níveis de incompreensão que o incomodavam e confundiam. Um, a mitificação do escritor-viajante, esquecendo que, ao mesmo tempo, ele também escrevera sua obra evocativa ( o " ciclo de Lowell " ), e mais seus poemas ( México City Blues e San Francisco blues ), além de um texto budista, The Scripture of Golden Eternity. Outro, a crítica contra a sua obra: como On the Road teve uma acolhida triunfante e tornou-se best-seller, os resenhistas e críticos sentiram-se na obrigação de abordar com especial rigor suas obras seguintes, apontando seus defeitos, mostrando como eram inferiores, mais fraca que as primeiras. Ou seja, ele estava entre dois fogos: o da criação de um mito, Kerouac, por alguns , e a tentativa de destruição desse mito, por outros. Seu último livro da fase da estrada, Big Sur ( 1961 ), é o relato dessa crise. Mais uma vez ele tenta isolar-se, na casa de praia de Lawrence Ferlinghetti. Ao chegar lá, a solidão o incomoda, tem um ataque de delirium tremens, alucinações nas quais combate demônios e o livro termina com a visão de uma cruz aparecendo no oceano, sua reconciliação com o catolicismo. Mas a crise já vinha de antes. Sua ida a Tânger e a Europa em 1957 ( relatada em Desolation Angels ) só lhe provoca tédio e sensações de vazio. Em Dharma Bums, ele tenta mudar o estilo, passando a usar frases curtas, com mais ênfase no relato dos acontecimentos e menos no seu fluxo de consciência ( por isso Dharma é o livro preferido de muitos, é sua obra mais " fácil ", linear e discursiva ). Suas viagens depois de 56 são uma busca cada vez mais errática, cujos objetivos vão se distanciando.
" Os Subterrâneos - Jack Kerouac " - Parte 3
Temos aqui verdadeiros jorros de linguagem, blocos compactos de texto misturando relato, evocação e reflexão, indo e voltando no tempo dentro dos mesmos longos parágrafos. Valendo o paralelo com o jazz, este é um livro com uma batida acelerada e muito " swing ". E um exemplo bem-sucedido do que ele queria fazer: levar para o papel o próprio fluxo de consciência, a sucessão das imagens e ideias. E, principalmente, curtir o som e o ritmo das palavras, o valor fonético e prosódico da linguagem falada. Ele procurou criar uma literatura orgânica e animada, um texto sobre a vida que fosse vivo e pulsante. Ginsberg tem razão ao falar em " ioga da palavra ", referindo-se à fruição das palavras como ritmo e sonoridade, desligada dos seus sentidos. E também está certo ao mostrar como Kerouac trazia sua " pessoa " para o texto, integralmente. Não só a mente pensante, a consciência reflexiva, mas a pessoa como totalidade, suas paixões, emoções, nervos e carne. Kerouac tinha tinha plena consciência disso. No começo do livro, ao falar da sua " egomania "como dificuldade para narrar ( em uma narrativa escrita em três noites...), ele está ironizando a noção de uma literatura " impessoal ", derivada de Eliot e dominante entre os formalistas da época. Sua contribuição foi decisiva para recuperar o sujeito, a fala do narrador e a primeira pessoa na criação literária, com reflexos inclusive no jornalismo participante, praticado a partir dos anos 60 e criado por Tom Wolfe. Por recolocar o sujeito na sua integridade, Os Subterrâneos é um livro que tematiza o amor e no qual está bem presente o erotismo. É coerente a inclusão nele de uma homenagem a Wilhelm Reich e sua teoria do orgasmo, na época ainda propostas muito avançadas. Junto com Tristessa ( escrito em 1955 a 1956 ) e Visions of Cody ( de 1951 ), é um dos seus livros mais ousados como tema. Tristessa é a história do caso amoroso com uma moça mexicana, traficante de drogas, o contato com seu amigo Bill Garver em Cidade do México. Visions of Cody tem, como núcleo da narrativa, a relação a três envolvendo Neal Cassady e sua mulher. Em Os Subterrâneos, o caso é com Mardou fox, negra, drogada e pirada, ex-internada e sob tratamento, desorganizada e caótica. Nesses dois livros ( Os Subterrâneos e Tristessa ), ele entra fundo no tema das drogas. Seus personagens tomam Benzedrina, puxam fumo e, como pano de fundo, comparece um drogado ilustre, William Burroughs ( Frank Carmody ) e é evocada sua mulher Joan ( Jane ), viciada em benzedrina e morta acidentalmente ( ou não ) pelo marido com um tiro na testa no México, em 1951. As drogas atraíam Kerouac mais como tema que como material de consumo. Exceto eventuais fumadas ( como as deste livro e do final de On the Road ) e benzedrina como estimulante, ele preferia mesmo a bebida ( vinhos licorosos, principalmente ), que acabou por destruí-lo, transformando-o em alcoólatra irrecuperável e provocando a hemorragia no estômago que o matou em 1969 na Flórida, aos 47 anos.
" Os Subterrâneos - Jack Kerouac " - Parte 2
A recente publicação de On the Road no Brasil suscitou a previsível polêmica sobre seu valor literário e sobre a importância de seu autor. Chegou-se a falar em modismo e volta aos anos 50. E até mesmo em " inútil exumação ", recentemente em um dos nossos suplementos literários. Nada a estranhar: a polêmica o acompanhou por sua vida e continuou depois dela. Mesmo assim, é importante assinalar que o reconhecimento da contribuição de kerouac e a atenção dada a sua obra só tem crescido após sua morte. Hoje, nos estados Unidos e em outros lugares, Kerouac está sendo mais lido e melhor lido. Contribui para isso a publicação da sua mais extensa e inspirada obra, Visions of Cody, postumamente, em 1972. E também a maior atenção à sua obra evocativa, em que fala da infância e juventude: Doctor Sax, Maggie Cassidy, Visions of Gerard e Vanity of Duluoz. Tais livros não nos revelam um " outro " Kerouac: eles apenas ampliam a compreensão da sua obra e da sua personalidade. O destaque dado a Kerouac como " beatnik " talvez tenha algo de modismo ultrapassado, mas não o interesse pelo Kerouac escritor. Este continua e permanecerá: tanto é, que a bibliografia a seu respeito, os estudos dedicados à sua vida e obra, têm aumentado do começo dos anos 70 até hoje. Sua biografia por Ann Charters é de 1973, do mesmo ano, Kerouac's Town de Barry Gifford e Visions of Kerouac de Charles E. Jarvis. E há outro Visions of Kerouc, por Martin Duberman, de 1977. Gisnberg escreveu sobre ele em Visions of the Great Rememberer, de 1974. De 1976 é o The Naked Angels de John Tytell, talvez o melhor livro sobre o trio constituído por Kerouac, Ginsberg e Burroughs. De 1978, o interessantíssimo Jack's Book de Barry Gifford e lawrence Lee, um livro colagem de depoimentos a seu respeito. E quem acompanhar a vida literária do restante do planeta saberá que também tem aumentado o número de traduções, ensaios, artigos e resenhas na França, Itália, Espanha, etc. Estamos, portanto, em um momento perfeitamente adequado para uma boa recepção de Kerouac, como escritor e não apenas como protagonista de um enredo que tem muita coisa de folclórico e circunstancial. E, por isso mesmo, para começar a examinar o valor e a importância deste Os Subterrâneos dentro da sua obra. Sabe-se que o seu caso amoroso com Mardou Fox, que se transformou em triângulo envolvendo Gregory Corso ( Yuri Gligoric no livro ), tendo ainda como participantes da história Allen Ginsberg ( Adam Moorad ) e Lawrence Ferlinghetti ( Larry O'Hara ), ocorreu no ápice do período mais agitado e criativo da sua vida, de 1951 a 1955, quando, além de viajar sem parar, escreveu onze dos seus livros. Segundo a lenda criada ao redor da rapidez de kerouac para escrever, este teria sido o mais espontâneo dos seus textos: logo depois de terminar o caso com Mardou, mandou-se para o outro extremo do país, Long Island, onde então morava " Memere ", sua idolatrada mãe, trancou-se no sótão da sua casa e escreveu 111 páginas " em três noites de lua cheia, em outubro de 1953. Há um certo exagero nessa história da velocidade de Kerouac para escrever. Sabe-se que On the Road não foi feito apenas em três semanas, mas sim em duas etapas, com uma boa parte refeita depois. Mas, de qualquer forma Os Subterrâneos está em primeiro lugar na escala da rapidez. E, talvez por isso, como obra especialmente representativa da sua " prosódia bop ", do estilo que ele criou.
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