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sábado, 8 de abril de 2017

O Livro de Ouro das Ciências Ocultas - Parte 19 __ A Decadência da Magia e a Cisão entre Ciência e Religião.

Já no Antigo Egito, com o crescimento da população, começou a desenvolver-se paralelamente com a magia dos sumos sacerdotes, considerada ciência secreta, uma pseudocientífica magia popular.   Com os povos da " terra entre dois rios ", o Eufrates e o Tigre, aconteceu o mesmo; eram os babilônios, e depois os caldeus, vindos do Golfo Pérsico.   Todavia o mundo ainda era encarado como unidade; uma unidade de fenômenos e forças materiais e espirituais, de corpos e almas que conviviam lado a lado, indissoluvelmente ligadas.   A natureza no entanto, não se mostra apenas como potência nutriz e protetora.   Com demasiada frequência a humanidade é atingida por arrasadoras violências naturais.   Por um lado, a Grande Mãe Natureza se mostra benévola, e por outro despeja sua divina ira.   Isto levou à crença de um princípio tanto do bem quanto do mal, em perpétuo conflito pela liderança.   É compreensível que as pessoas se interessem em afastar as forças do mal e queiram conhecer seu futuro.   Nada compromete mais o trabalho mental do que a sensação de estar à mercê do desconhecido e do imprevisível.   Preocupar-se com um programa de segurança e planejar o futuro faz parte das características do consciente humano.   O progressivo desenvolvimento do consciente, evoluem também os conceitos de fé das religiões.   Enfim, a religião predominante perde gradualmente sua credibilidade e começa o tempo dos falsos profetas, conforme o denomina a Bíblia.   A magia já é condenada no Antigo Testamento da Bíblia como uma intervenção proibida na onipotência de Deus.   No entanto, as Sagradas Escrituras dos judeus são uma  mina de ouro de práticas mágicas.   Conforme prova Riwkah Scharf em sua tese A Figura de Satã no Antigo Testamento, o deus judeu Iavé ( Jeová ) tinha originalmente um irmão gêmeo, Malèk-lavé, que representava o lado noturno e sombrio.   Noção que se reporta aos antigos deuses gêmeos babilônios.   No Livro de Jó, Malèk-lavé passa a ser filho de Deus.  É Lúcifer que, ainda como Príncipe dos Anjos, faz uma aposta de igual para igual com seu pai.   Em textos posteriores, ele toma o nome de Satã, mas ainda é mensageiro de Deus.   É mágico-mor.   Só no Novo Testamento Lúcifer se torna rei do inferno, opositor de Deus, o poder do Mal; com isto também a magia passou a ser uma arte infernal.   O Antigo Testamento não conhece o inferno como nós o imaginamos, apenas um céu, o reino de lavé e dos anjos imortais.   Seu inferno é o deserto, noção muito compreensível num povo nômade e pastor.   O senhor do deserto é Azazel, antigo demônio árabe dos desertos, da era pré-mosaica.   Ele simboliza a aridez e o vazio, a ausência de vida.   A esta entidade os israelitas consagravam, por ocasião da colheita, um bode; sobre este eram depositados, junto com fórmulas mágicas de esconjuração, todos os erros e pecados do povo, enfim, tudo de mal que ocorrera na tribo.   A seguir, o animal era enxotado para o deserto.   Para a psicologia, este conceito mágico do bode expiatório se tornou uma característica recorrente do inconsciente humano: a tendência de atribuir sempre a terceiros todo erro, atitude errônea ou insucesso, em vez de procurar as causas do próprio íntimo.  Peculiarmente, em passagem alguma do Antigo Testamento se encontra descrição exata do Além.   A rigor, só há distinção entre viver e não viver.   O Antigo Testamento não conhece igualmente ritos de iniciação no mistério da morte, seja como porta para o renascimento, sob qualquer forma, seja como transição para o prosseguimento da vida após a morte, sob a forma espiritual.   O que os profetas anunciam como redenção é a Terra Prometida, onde corre leite e mel.   A morada de Deus é o Monte Sinai, onde fica Israel.   E onde está Israel, também está Deus.   Céu e Inferno, os páramos do Além, são imaginados, por assim dizer, só para a vida terrestre.   É possível este conceito materialista de vida tenha explicação na sina dos judeus; sem condições de se defender dos povos vizinhos, sofreram diversos períodos de escravidão.  No entanto eles também praticavam a necromancia, a evocação dos mortos para predição do futuro.   O Rei Saul, por exemplo, certa vez procurou, na calada da noite, a bruxa de En-Dor.   Exigiu dela a convocação do espírito de Samuel, para  que ele lhe revelasse o desfecho de uma batalha iminente.   O espírito compareceu e anunciou a morte do rei.   As sagradas Escrituras não dizem se isto se deu em consequência do resultado da batalha, desfavorável para Saul, ou como castigo pelo ato proibido de consultar a bruxa.   Predizer e profetizar, como magia aplicada, era hábito generalizado entre judeus, conforme mostram os Livros dos Profetas; mas só o Sumo Sacerdote podia consultar oráculos, e isto unicamente no reino do Templo.   O Antigo Testamento proibia, sob pena de morte, procurar conselhos junto a bruxas e feiticeiros.   Também o Rei Davi, sucessor de Saul, consultou oráculos, desafiando a lei.   O sábio Rei Salomão tomou por esposa uma princesa egípcia, e em seu harém viviam mulheres das mais variadas procedências.   Era tolerante, e permitia que elas cultuassem seus deuses de origem.   Consta que ele conhecia os mais recônditos segredos da magia e da demonologia.   Seu sinete mágico desempenhou posteriormente papel significativo no Talmude e na Cabala.   Após a sua morte, o reino decaiu.   Ao norte de Israel venerava-se um Deus sob a forma de um Touro.  É o bezerro de ouro citado na Bíblia e que integra o culto a Baal.   Só com a queda do Império Assírio, aproximadamente em meados do milênio pré-cristão, o Rei Josias desencadeia a grande derrubada de todos os deuses estranhos.   Foi nesta época que o Antigo Testamento tomou a forma que conhecemos como Sagradas Escrituras.  Corresponde igualmente ao período em que na antiga Grécia se processava o início da transição do pensamento mágico para o pensamento lógico.   É sabido que os sentidos também enganam e iludem, o que levam a falsas concepções.   E, então, pensar não resulta em conhecimentos, mas em desvio de pensamento.   Os filósofos já não se satisfazem com a sabedoria tradicional.   Começam a duvidar de tudo.   A decadência da magia e a exteriorização da religião permitem supor que a última hipótese é a acertada.   Eram pragmáticos e racionalistas.   Seu modo de pensar se baseava na razão e na compreensão.   Não faltava certa dose de presunção.   Assim o filósofo Protágoras proclamou: O homem é a medida de todas as coisas.   Os filósofos gregos começaram a questionar o ponto de vista dos sábios-magos.   A religião grega cultuava Zeus, e os deuses reinavam no Monte Olimpo; estes deuses eram concebidos sob forma muito humana, e de forma algum eram oniscientes.   Mas a religião de Zeus era a religião oficial do governo.   A religião passara a ser um ritual perfunctório, sem conteúdo válido.   Como consequência da nova maneira lógica de pensar e do afastamento do pensamento mágico, iniciou-se na antiga Grécia, na cidade-Estado de Atenas, seu centro cultural.   Uma espécie de cisão do consciente.   Atenas praticava naquela época a democracia.   Esta cisão foi fixada por Aristóteles, por escrito, em suas obras.   É dele uma tese Sobre a Alma, considerada como sendo o primeiro manual de psicologia do mundo.   Nela se separa espírito e alma; para ele a alma tem essência biológica, e como objetivo de pesquisa, deve ser estudada pela física.   Estudar espírito é a tarefa da metafísica que faz parte da filosofia.   Para ele o espírito como tal é como que uma dádiva, um penhor dos deuses.   Para ele a alma faz parte do corpo, e é perecível como ele.   Só o espírito é imortal.    Espírito é para Aristóteles um conceito abstrato, algo entre o sagrado e o divino, como a ideia.   Sua origem é o reino das ideias sempiternas, conforme postulava seu mestre Platão, de quem herdou a tese.   Platão ainda falava numa visão mágica; seu aluno porém é um declarado racionalista.   Ele divide até Eros em duas formas de manifestação: o Eros espiritual e o Eros sexual.   para ele no entanto, os dois tipos de amor  ainda são um só.    Aristóteles não é criativo, é um disciplinador que classifica tudo, é um funcionário das ciências, diligente e preocupado apenas em ordenar tudo em escaninhos separados.   lamentavelmente esta cuidadosa separação levou posteriormente a uma cisão no pensamento, dualismo de pensamento.   Em consequência as ciências se dividiram em ciências naturais e ciências psíquicas, a separação que perdura até hoje.   A vida religiosa dos gregos, por exemplo, não se restringia à religião oficial de Zeus; ao lado dela existia o culto de mistérios de Elêusis.   Esta era a verdadeira religião popular.   Devemos o conhecimento sobre o culto de Elêusis ao trabalho de pesquisa do amigo e colaborador de C.G.Jung, Karl Kérenyi;     Elêusis se venerava uma Divina Trindade  Feminina, a Grande Mãe formada pela trindade Réa, Deméter e Perséfone.   O elemento masculino correspondente, simultaneamente pai, marido e filho, é o antigo deus grego Dionísio.    É o deus oculto por trás da máscara, símbolo da força vital eterna na natureza, cuja vitalidade desperta a vida no elemento feminino, fazendo-a renovar-se continuamente.    Em épocas mais remotas ainda se faziam oferendas sangrentas aos deuses; inicialmente sacrifícios humanos, e depois animais.   O culto de Elêusis, porém, não é sangrento.  Como Deméter, a Grande Mãe se apresentava com uma coroa de espigas de trigo; é ela que presenteia os homens com este cereal e com os demais alimentos; sua festa é uma espécie de Natal.    A vida é imortal e a morte é apenas um processo de transformação.   Quinhentos anos antes, os mortos iam para um reino das sombras, onde vegetavam desmemoriados para sempre; é o que escreve o poeta épico Homero.   Mnemósine é também mãe das musas, as conhecidas protetoras das artes.   Com isto chega a um segundo culto secreto, que tem certa relação com a religião de mistérios de Elêusis, o culto a Orfeu.   Christoph Willibald Gluck fez do destino de Orfeu o tema  de sua ópera Orfeu e Eurídice (Viena, 1762); nela ele conta que Orfeu empreende a viagem ao reino das sombras a fim de resgatar sua mulher, Eurídice, raptada pelo rei do mundo inferior, Hades.    O cantor Orfeu, que encantava os animais com seu canto, fazendo-os escutar fascinados, passa ileso pelo cão de guarda infernal..   Cérbero, Hades se comove com o amor de Orfeu, e libera Eurídice, contudo o cantor torna a perdê-la, pois desobedece à proibição divina de olhar para trás.   Em sentido figurado: a constante contemplação do passado transforma a vida em comum dos homens em inferno, principalmente quando o homem se fixa no passado de sua mulher por ciúme; pois a vida continua.   Na vida a dois, olhar para o futuro é mais importante do que olhar para trás.   No entanto, a versão de Gluck é da antiguidade tardia.   Na verdade, o mito de Orfeu tem um significado mais profundo.   A versão primitiva é diferente.   O destino de Orfeu é ser massacrado por um bando de mulheres obcecadas, que odeiam os homens até a morte; ninfas fanáticas dedicadas ao culto do grande Pã.   Todos esses mitos primordiais, do qual citei alguns; se baseiam nos processos de transformação da natureza e na alternativa das estações do ano.   Porém, a morte de Orfeu apresenta uma variação interessante.   As mulheres lançam seu corpo esfacelado no mar, ele não morre;; o poder criativo, o gênio da arte, confere a Orfeu a imortalidade.   Isto as mulheres , representando, no caso, o êxtase erótico, não podem destruir.   

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